Bombas caem em Gaza. Sobre crianças, sobre famílias, sobre hospitais, locais de culto, sobre jornalistas, sobre vidas. Como escrever sobre outra coisa, como falar de algo que não a barbárie perante os nossos olhos?
Tudo o que se possa dizer parece banal, porque dificilmente, entrincheirados no momento, conseguirmos interpelar a dimensão histórica dos acontecimentos. Todas as palavras de circunstância, as questões mesquinhas, o pragmatismo imediatista se esfumam como pó nos escombros, incapazes de abrir qualquer caminho de esperança, paz e justiça. Quiçá o mesmo se aplique a estas linhas. Talvez por isso, aqui trago as palavras de quem, me parece, conseguiu falar para além do muro de morte e desespero que sufocam qualquer perspetiva histórica destes dias.
Falo de Craig Mokhiber, o ex-diretor do Alto Comissariado para os Direitos Humanos da ONU em Nova Iorque que, há poucos dias, se demitiu do cargo, em protesto contra a incapacidade das Nações Unidas de impedir o que ele diz ser, sem meias palavras, «um caso clássico de genocídio». Não se trata só de um gesto corajoso, raro nestas instâncias, e que já não significaria pouco. Falo sobretudo e reivindico a carta pública de demissão que Mokhiber escreveu e divulgou. Não se trata apenas de um protesto ou de uma denúncia, mas de uma avaliação contundente do papel da ONU, da sua fragilidade genética intrinsecamente ligada à questão palestiniana. Além de ser um roteiro para a solidariedade internacional com a Palestina que pode sustentar a ação de quem, em todo o mundo, luta contra a nova Nakba em curso.
A demissão foi noticiada e, nos média ocidentais, rapidamente esquecida; a carta foi superficialmente citada, mas pouco divulgada e traduzida. Provavelmente pelo seu conteúdo inconveniente. Não obstante, penso que o tempo revelará que se trata se um documento histórico. Recomendo a sua leitura e divulgação, pois ela não perderá validade por muitos anos, independentemente do desfecho dos acontecimentos presentes na Palestina.
O primeiro motivo para isso é Mokhiber não hesitar em caracterizar como genocídio o que tantos ainda insistem em apelidar de direito à autodefesa de Israel. Advogado de direitos humanos, já teve até oportunidade de assinalar que o que, em muitos casos de potencial genocídio, é o mais complicado de provar — a intencionalidade —, é aqui declarado: são os governantes e militares de Israel que assumem o projeto genocida. E perante isto, a comunidade internacional, a ONU, os EUA e a Europa claudicam ao que Mokhiber chama o «lobby de Israel» e à chantagem que, propositadamente, confunde antissionismo, ou mesmo o mínimo de empatia, com antissemitismo. O quão minúsculo se revela Marcelo Rebelo de Sousa, com as suas cínicas declarações, mas também António Costa, com a sua inação, perante a mensagem de Mokhiber.
A segunda, e talvez a mais profunda, razão que faz desta carta um documento histórico é a breve passagem em que Mokhiber lembra a coincidência temporal da publicação da Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU com a Nabka. «De certo modo, os seus autores prometiam direitos humanos a todos, exceto ao povo palestiniano. E lembremo-nos também que a própria ONU carrega consigo o pecado original de ajudar a facilitar a expropriação do povo palestiniano, ratificando o projeto colonial europeu que se apoderou da terra palestiniana e a entregou aos novos colonos.» Nestas poucas linhas, Mokhiber vai ao encontro de tantos protagonistas das lutas antirracistas, anticoloniais e anti-imperialistas do passado e do presente que denunciam a falsa universalidade da lei e da ética em que assenta a ordem mundial que nos governa e que justifica a manutenção da expropriação e exploração imperialistas, sobre povos e natureza, um pouco por todo o mundo, mas sobretudo nos países da periferia e sobre as populações racializadas e marginalizadas. Ao apontar a legitimação da Nakba, a catástrofe sangrenta sobre a qual se fundou o estado de Israel, como pecado original da ONU, Mokhiber assinala a centralidade histórica da questão palestiniana. Ao fazê-lo, lembra-nos como a ordem mundial nascida no pós-segunda guerra, supostamente fundada no direito internacional, na prossecução da paz e do progresso, coroada pela fundação da ONU, assenta sobre o colonialismo, a expropriação dos povos e o imperialismo, sendo não uma rutura, mas, em muitos aspetos, uma continuidade com a que precedeu. O «nunca mais» com que as grandes potências responderam ao Holocausto era afinal parcial, logo falso. Também por isso, hoje, todos os fantasmas do século xx regressam para nos ensombrar — dos Balcãs ao Leste Europeu, do Pacífico ao Médio Oriente, passando pela ascensão global do fascismo. E a Nakba palestiniana, passada e presente, é essa ferida aberta, simbólica e demasiado concreta que não deixa esquecer que os monstros do passado se projetam no presente e ameaçam o futuro. E, por isso, um pedaço tão pequeno de terra concentra tanta dimensão histórica. Tal a luta para a sua libertação.
Por fim, Mokhiber enuncia dez pontos para a resolução do conflito que bem se podem tornar uma plataforma para unir a luta internacional pela libertação da Palestina. Como um programa de transição preciso, parte da mais premente exigência que nos deve unir globalmente: o cessar-fogo. Mas desenvolve-se em direção a uma solução definitiva, porque justa e reparadora, assente na realidade histórica e não em desejos idealistas ou em arranjos. Escreve Mokhiber: «O mantra da “solução de dois Estados” tornou-se uma piada aberta nos corredores da ONU, tanto pela sua total impossibilidade de facto, como pelo seu total fracasso em dar conta dos direitos humanos inalienáveis do povo palestiniano.» Para o diretor demissionário, já não se trata de saber se esta seria uma solução justa, mas de assumir que não é uma solução. Mokhiber, resgata assim a proposta histórica da esquerda palestiniana: um estado palestiniano, laico, democrático e não-racista, do rio Jordão ao mar Mediterrâneo. «Devemos abandonar o paradigma falhado (e em grande parte falso) de Oslo, a sua solução ilusória de dois Estados», afirma sem tibiezas. A solução? «Um Estado baseado nos direitos humanos: Devemos apoiar o estabelecimento de um Estado único, democrático e secular em toda a Palestina histórica, com direitos iguais para cristãos, muçulmanos e judeus e também, portanto, o desmantelamento do profundamente racista projeto de colonização, e o fim do apartheid em todo o território.» Com esta proposta cristalina, mas contundente, que rasga caminho para o futuro, Mokhiber interpela o mundo — e antes de mais a resistência palestiniana e a solidariedade internacional — a repensarmos o conflito na sua dimensão histórica. Passado, presente e futuro.
Num momento avassalador, em que mesmo a tímida «pausa humanitária» parece longínqua, uma proposta estratégica com esta audácia pode parecer inútil, utópica. É evidente que a bandeira hoje que deve inundar as ruas é a do cessar-fogo imediato. Contudo, não há resistência sem esperança, nem esperança sem horizonte; nem podemos medir o presente, cada palavra ou gesto que ele nos exige, sem uma perspetiva histórica. É por apontar nesse sentido que a Carta de Mokhiber, mais do que um gesto de coragem, é um grito de raiva e esperança direcionado para o futuro.