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A diferença entre o pé e o chinelo

Mamadou Ba e André Ventura, espelho um do outro, diz o primeiro-ministro. O antirracismo que luta pela democracia e a discriminação que a recusa, os dois “muito perigosos”.

Há um curiosíssimo exercício promovido pelos intelectuais da direita que, depois de terem corrido a justificar a aliança do PSD e CDS com o Chega, vieram explicar que a coisa não era assim tão sinistra, dado que também o PS teve um trato assinado com o Bloco e com o PCP, que os “extremos” são todos iguais e paciência, é a vida, cada qual tem o que merece. O truque da equivalência recorre um contorcionismo político que, se não surpreende, não deixa de criar vergonha alheia: ele sugere que é a mesma coisa um partido, como o PCP, propor um salário mínimo de €850, ou o Bloco propor carreiras exclusivas nas profissões de saúde, e a extrema-direita querer mandar Joacine para a sua terra ou castrar condenados na Justiça.

O primeiro-ministro, provocando alguma surpresa, veio ajudar esta narrativa com uma entrevista recente. Explicou ele que “há dois fenómenos que estão a surgir entre nós e têm o efeito de se emularem um ao outro” e que são “muito perigosos”, sendo o primeiro “uma revisão autoflageladora da nossa História” e o segundo “a liberação de reações racistas ou xenófobas”. Vale a pena ler com a devida atenção estas palavras. Segundo Costa, estes fenómenos “estão a surgir entre nós”, não existiriam antes. Curioso. Depois, “têm o efeito de se emularem um ao outro”, de rivalizarem e de se alimentarem mutuamente. Mais curioso. Depois, o conteúdo: uma análise da escravatura (existiu mesmo) será “autoflagelação” e “revisão”? Estará a ministra da Justiça a “flagelar” o país ao querer corrigir um “racismo estrutural” que está escrito em séculos de colonialismo? E o “racismo” será a emergência de um fenómeno que responde a essa “autoflagelação”, como se fosse um sentimento da identidade pátria magoada pela crítica passadista? Finalmente, o primeiro-ministro dá nome aos “dois fenómenos”: Mamadou Ba e André Ventura, espelho um do outro, o antirracismo que luta pela democracia e a discriminação que a recusa, os dois “muito perigosos”.

Como o Ministério da Presidência, um dos mais chegados a Costa, acabou de convidar Mamadou para o Grupo de Trabalho para a Prevenção e Combate à Discriminação Racial, que elaborará o primeiro Plano Nacional contra o Racismo (e, ao que se sabe, não convidou Ventura para a comissão do RSI), presume-se que no Governo não se leva muito a sério o que o primeiro-ministro afirmou para obter um efeito político. Sempre é boa notícia.


Artigo publicado no Expresso de 12 de março de 2021.

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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