A diferença que um ano faz

porMarisa Matias

27 de novembro 2010 - 12:08
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Em Copenhaga, a Europa exigia um acordo global vinculativo. Para Cancun, contenta-se com um “passo intermédio significativo”.

Há um ano atrás preparava-se a Conferência de Copenhaga sobre as alterações climáticas. No Parlamento Europeu o entusiasmo era evidente. Os problemas ambientais estavam ainda na ordem do dia. A Europa, com a crise a marcar uma agenda ainda incerta, precisava urgentemente de algo que a pudesse unir. A existência de uma política ambiental comum, permitia fazer do combate às alterações climáticas a marca dessa unidade. A Europa assumiu publicamente a vontade de liderar essa mudança. A União chegaria a Copenhaga para, daí, comandar os destinos do ambiente rumo a um acordo global. Se dúvidas houvesse, a estratégia comum assumida pelos diferentes grupos parlamentares teve, então, uma votação mais do que auspiciosa. Noutros tempos, alguém a teria classificado de “albanesa”.

O que se passou depois em Copenhaga? O tigre europeu era, afinal, um gato de estimação. A Europa nem à mesa do acordo final teve direito. Cinco Estados (Estados Unidos, China, Brasil, Índia e África do Sul), de resto com interesses contraditórios, decidiram os compromissos. Fracos e ainda por cima facultativos.

No regresso falou-se de fracasso. Em Bruxelas, a Cimeira foi virada de trás para a frente e de frente para trás e tirou-se a habitual conclusão optimista: “para o ano é que vai ser”.

Um ano passou. Uma nova cimeira realiza-se em Dezembro, desta feita em Cancun, no México. A diferença que um ano faz. Afinal o acordo que não era bem um acordo passou a ser um acordo para respeitar. A ambição foi guardada para melhores dias. No que se obteve em Copenhaga não se toca. A palavra de ordem é “realismo”.

Em Copenhaga, a Europa exigia um acordo global vinculativo. Para Cancun, contenta-se com um “passo intermédio significativo”. Bruxelas tempera-se. As propostas aprovadas pelo Parlamento Europeu no ano passado passaram agora por uns escassos 20 a 30 votos de diferença. Os governos bateram em retirada e os seus deputados de mão obedeceram-lhes. O “realismo” chama-se austeridade, palavra que não rima com investimento. Só não mudou a arrogância. Em Cancun, Bruxelas quer voltar a mostrar quem é que tem a política ambiental mais exigente.

O “realismo” tem razão? Não tem. A crise ambiental é produto do mesmo sistema de vistas curtas que nos trouxe à situação em que nos encontramos. Desistir de investir no combate às alterações climáticas é renunciar à criação de empregos com futuro.

Marisa Matias
Sobre o/a autor(a)

Marisa Matias

Dirigente do Bloco de Esquerda, socióloga.
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