Cinquenta anos de autonomia são motivo de celebração. São anos que nos obrigam a lembrar e a reconhecer todos aqueles que fizeram este caminho: quem lutou, quem resistiu, quem construiu — e quem, todos os dias, continua a defender a autonomia, sem desistir.
A Autonomia, nascida da Revolução de Abril e da Constituição democrática, não é uma abstração, nem peça de museu. É escola, é hospital, é estrada, é porto. É salário, é trabalho, é casa, é dignidade. Trouxe avanços reais, concretos, que mudaram a vida das pessoas.
Mas celebrar hoje cinquenta anos de autonomia é, acima de tudo, olhar para quem vive nos Açores — nas nove ilhas — e responder no presente. Responder a quem, no seu dia a dia, mantém estas ilhas vivas. A quem trabalha, resiste e insiste. A quem continua a acreditar no futuro. Porque a autonomia não é um fim em si mesma. É um instrumento — e só faz sentido se melhorar a vida de quem cá vive.
Celebrar a autonomia é, antes de mais, celebrar quem trabalha fora dos palácios e dos gabinetes. É olhar para o pescador que se levanta de madrugada e enfrenta mais uma vez o mar. Para a operária da fábrica, que passa a vida inteira com o salário mínimo. Para a trabalhadora doméstica, que percorre infindáveis casas para pagar as contas ao fim do mês. Para o agricultor, que de sol a sol, vê os custos aumentarem e o rendimento encolher. Para a enfermeira, que soma horas extraordinárias para garantir que o hospital continua a funcionar. Para o pedreiro que, não vendo o seu trabalho valorizado, é empurrado para a emigração. Para o estudante que sonha, sair e um dia voltar. É desta gente — do seu trabalho, do seu suor, dos seus sonhos — que é feita a autonomia. E é a este povo que a autonomia tem de prestar contas.
Hoje, os desafios são claros. Os salários não chegam ao fim do mês. As desigualdades acentuam-se. O navio que se atrasa aumenta a conta no supermercado. E cada custo que sobe pesa diretamente na vida de toda a gente. Perante isto, a autonomia não pode ser apenas memória. Tem de ser resposta, presente e futuro. Tem de ter coragem para destronar a desigualdade e o isolamento. Para agir. Para proteger quem trabalha e quem vive nestas ilhas. Tem de servir para aquilo para que foi criada: garantir uma vida melhor.
Os próximos cinquenta anos de autonomia não se garantem com discursos para manter tudo como está. Garantem-se com esperança, mudança profunda e resultados. Só haverá futuro se a autonomia for capaz de concretizar aquilo que Abril prometeu — uma vida digna para quem aqui vive. Porque a autonomia só faz sentido se for vivida pelas pessoas. E só dura se for útil.
Viva a Região Autónoma dos Açores.
Intervenção na Sessão Solene do Dia dos Açores, realizada a 25 de maio de 2026 no Teatro Micaelense.