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Desconfinamento: nem festa, nem pânico

Os últimos meses já demonstraram que o combate à covid-19 será feito de avanços e recuos. O caminho será longo, duro e desgastante. Para que seja bem-sucedido, a transparência, a coerência e a decisão com base no melhor conhecimento científico são essenciais.

O agravamento da pandemia nos Açores é motivo de preocupação, mas não deve ser motivo de pânico. Do mesmo modo, quando atingimos os zero casos nos Açores, sendo um dado positivo, isso não era motivo para despropositados festejos.

Era expectável que, tendo em conta a situação epidemiológica no continente e mesmo na Europa e a natural retoma das ligações aéreas, voltassem a surgir casos de COVID-19 nos Açores. Temos de estar preparados para lidar com eles.

É por isso que foram completamente inusitadas e até contraproducentes as celebrações que surgiram aquando do momento em que deixámos de ter casos na região. Infelizmente, como era de esperar, surgiram os novos casos na região e agora uma cadeia de transmissão local.

Mas essas celebrações não foram ingénuas nem sequer inócuas. Em primeiro lugar não foram ingénuas porque tiveram como objetivo obter ganhos políticos com o combate à pandemia. O Partido Socialista, partidarizando o combate à pandemia, quis ficar com os louros dos resultados, fazendo até campanhas nas redes sociais para cavalgar esses resultados.

Em segundo lugar, essas celebrações não foram inócuas porque transmitiram às pessoas a mensagem de que tínhamos vencido o vírus, quando apenas tivemos uma trégua. Essa atitude foi por isso um erro lamentável.

Por outro lado, medidas que as autoridades de saúde e o Governo implementam, mais do que sinais, estabelecem regras e orientações. Perante uma realidade nova e num cenário de cansaço de vários meses de restrições muitíssimo duras não se pode lavar as mãos e esperar que as responsabilidades sejam a partir de agora apenas individuais. É por isso que existem autoridades de saúde e governos. A sua responsabilidade é superior às responsabilidades individuais, que não deixam de existir.

Certamente munidos de dados que desconheço, o Governo Regional e a Autoridade Regional de Saúde decidiram abrir os estabelecimentos de diversão noturna na região em junho, estabelecimentos onde o distanciamento é, naturalmente, extremamente difícil de manter e controlar. Opção diferente teve o Governo da República. Não sei o que justifica esse critério distinto.

Em simultâneo, os eventos públicos em ambiente controlado, mesmo com lotações reduzidas, distanciamento entre cadeiras, entre outras medidas, continuaram durante todo o mês de julho altamente desaconselhados pelo Governo. Qualquer pessoa percebe que existem aqui contradições muito grandes.

É necessário que todas as medidas aplicadas sejam justificadas com critérios técnicos e que estes sejam transmitidos à população. Desconheço os critérios científicos que justificaram várias dessas decisões. Suponho que existam, mas se estes não são explicados, não é muito diferente de não existirem.

Se agora é dado um passo atrás na ilha de São Miguel e os motivos são explicados, é preciso que os passos em frente o sejam também.

Por exemplo, o Governo nunca explicou até hoje o porquê de não estar prevista redução do número de alunos por turma em setembro, quando começar o ano letivo. Qual é o critério científico que o justifica? Será que existe algum?

Se o facto de termos atingido os zero casos ativos de COVID-19 na região não era motivo para lançar foguetes, o agravamento da situação não é motivo para entrar em pânico. Não vale a pena termos ilusões: os últimos meses já demonstraram que o combate à COVID-19 será feito de avanços e recuos. O caminho será longo, duro e desgastante. Para que seja bem-sucedido, a transparência, a coerência e a decisão com base no melhor conhecimento científico são essenciais.

De outro modo, a confiança na estratégia é minada e colocamos em risco a saúde dos açorianos e açorianas e o trabalho e esforço de tanta gente.

Sobre o/a autor(a)

Coordenador regional do Bloco de Esquerda/Açores
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