As recentes eleições legislativas, a exemplo do que vem ocorrendo na Europa e no Mundo, levaram a extrema-direita, racista, xenófoba e caceteira, a resultado tão elevados que ameaçam torná-la a segunda força política do país.
Para o conseguir valeu tudo, desde ilegalidades processuais, mentiras, falcatruas, chantagem emocional e instrumentalizações diversas.
A direita tradicional também tem uma importante dose de responsabilidade neste facto, ao assumir descaradamente bandeiras da extrema-direita e assim permitir a normalização das posições racistas e xenófobas, em vez de as combater como dela se esperaria.
O primeiro-ministro, apesar de ser o verdadeiro promotor destas eleições desnecessárias e envoltas em nuvens de dúvidas, de se ter servido de benefícios já previstos, e de vitimização, jogou com os sentimentos dos eleitores e saiu-se bem. Mas convinha que não se esquecesse que está muito longe da maioria absoluta e que nesse sentido deve agir em conformidade.
A Iniciativa Liberal, a extrema-direita fofinha, a cheirar a sabonete, também subiu na votação. Conseguiu o voto de mais alguns jovens a quem convenceu que são empreendedores e não trabalhadores e que os impostos devem baixar e não ser canalisados para financiar o Estado Social, como fez Milei na Argentina, a personagem que tentam copiar. Mas não se consegue enganar sempre toda a gente.
O PS, que ainda há três anos dispunha de uma maioria absoluta no parlamento deixou-se enrolar num conjunto de interesses particulares, de lutas internas e de cedências à direita que o catapultaram para uma perda de votos e de deputados na Assembleia da Republica.
Da mesma forma, como aconteceu noutros países europeus, a social-democracia, o PS, irá proporcionar apoio à direita para governar, em nome da estabilidade, um bem maior, como tem propalado. É nesse sentido que se posicionam os novos candidatos a dirigentes do PS. Como está amplamente comprovado lá fora, as cedências à direita não ditam nada de bom.
Pela primeira vez, na história da nossa democracia, a esquerda perdeu para a direita a maioria do eleitorado, e essa realidade tem que ser bem analizada.
O Bloco de Esquerda sofreu uma pesada derrota, reduzido a uma deputada, apesar das posições que defendeu na campanha serem as mais adequadas à situação em que o país se encontra mergulhado, e à difícil conjuntura internacional cujas consequências não são, totalmente, previsíveis.
Na área da esquerda apenas o Livre cresceu na sua votação.
Estamos ainda a tentar compreender, de forma profunda, o que aconteceu, não nos interessa queixarmo-nos dos outros para justificar a nossa derrota, mas muito há a dizer da propagação de ódio nas redes sociais, do tratamento desigual na comunicação social e dos comentadores convidados, mal informados e portadores de mensagens que raiavam a ignorância de quem não conhecia o programa eleitoral e expressou, sem contraditório, as mais falsas opiniões sobre o mesmo.
O importante é analisar o que aconteceu, com humildade, mas com firmeza, erguer a cabeça e voltar à luta, armados do conhecimento e de vontade, sem procurar agulhas em palheiros e sem tentar tirar proveito de alguma fragilidade que é natural ser sentida.
Uma atitude mais pedagógica por parte da esquerda deverá ser tomada pois uma parte importante do eleitorado mostrou não perceber exactamente o que significa a subida da extrema-direita para a democracia e as consequências que acarreta.
No final, os eleitores preferiram as fantasias proclamadas pela campanha da direita e, em democracia, é o voto quem decide. Também sabemos que a extrema-direita utiliza os meios que lhe são dados pela democracia como forma de a destruir por dentro e nem sequer tem qualquer problema em o declarar abertamente, como sempre historicamente o faz.
Basta ler com atenção a declaração de vitória de André Ventura, plena de ameaças soezes e de revanchismo patético, à mistura com fantasias religiosas e afirmações grandiloquentes de novo “salvador da pátria”.
Não é, também, de menosprezar o apoio de Trump e de Putin a esta extrema-direita mundial.
Mas desenganem-se, aqueles, que pensam que tudo isto não passa de palhaçadas inconsequentes e sem grande importância. A extrema-direita, na Europa, como na América do Sul e nos EUA, tem vindo a cumprir um protocolo previamente traçado e daí tantas coincidências como atentados mal explicados, gritarias contra a corrupção, mas que servem à maravilha para criar episódios emocionais, medos que arrastam muitos votos.
O Bloco de Esquerda pagou cara a sua irreverência e as suas posições frontais, democráticas e anticapitalistas, afrontando os interesses do grande capital, talvez por isso viu reduzida a sua representação parlamentar a um único deputado. Não é por essa razão que deixaremos a clareza de posições, na defesa dos trabalhadores, dos direitos humanos, dos serviços públicos, do Estado Social, na defesa do ambiente e da paz, sem cedências nem tergiversações.
É com isso que os portugueses podem contar da nossa parte.