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Depois da derrota afegã

A cimeira da NATO foi apresentada pelo seu secretário-geral como uma “oportunidade única”, tanto para reparar as relações entre as potências europeias e os Estados Unidos como para lhes estabelecer uma estratégia com maior coesão política. Pareceria fácil.

Sem Trump, a relação atlântica seria normalizável; substituir o texto de 2010, aprovado numa cimeira em que foi festejada a presença da Rússia na mesa, seria igualmente coisa natural. No entanto, há obstáculos novos e difíceis.

O primeiro é político e vai para além do conflito entre a Turquia e os outros membros da NATO. Dentro de semanas concluir-se-á a retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão e o facto tem imenso significado. É só a segunda vez que os Estados Unidos são derrotados numa guerra. O exército mais poderoso do mundo foi vencido no Vietname e, agora, mesmo que a saída de Cabul não seja a fuga de Saigão, não é possível disfarçar que se trata de uma derrota, como aconteceu com a anterior ocupação soviética. Ora, esta operação envolveu a NATO, foi a primeira vez que foi usado o Artigo 5º, que obriga à entreajuda dos aliados, e saldou-se num desastre. No Afeganistão, a NATO declarou-se dona do mundo — e foi vencida. Ver-se-á o que fica dessa derrota.

Talvez o dano maior seja quanto à sua ambição estratégica. Em 1949, a NATO foi formada para garantir a “estabilidade e bem-estar na área do Atlântico Norte”, no dizer do tratado. O seu Artigo 6º delimita essa “área de segurança”, que seria a parte do Atlântico que fica a norte do Trópico de Câncer. Ao intervir no Afeganistão, que obviamente não está nessa região, a NATO e os EUA declararam ao mundo uma curiosa interpretação do tratado: já não se trata de garantir a segurança naquela área, mas de promover a intervenção das suas potências em qualquer parte do mundo, seja no mar da China ou no Polo Sul.

A cimeira tentou esquecer o caso afegão e cerrar fileiras, para apresentar a Rússia como uma “ameaça militar direta para a área euro-atlântica”, no dizer do texto discutido, e para virar holofotes contra a China. A dificuldade é que a China tem duas vantagens em relação ao anterior inimigo de estimação, a URSS: está profundamente interconectada com as economias ocidentais, o que funciona para os dois lados, e a NATO teme que venha a ganhar vantagem tecnológica, por exemplo na Inteligência Artificial, a chave do século XXI. A isto, a NATO responde com ensaios de guerra, sem saber como. É por isso que não serve para resolver conflitos.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 18 de junho de 2021

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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