Em Democracia exige-se respeito pela liberdade de imprensa, pelas opiniões dos jornalistas e, por isso mesmo, tal não pode ser impeditivo de assinalar as discordâncias.
É recorrente a preocupação demonstrada por alguma comunicação social e por comentadores de assuntos políticos em procurar confundir conceitos tão diferentes, como organizações e partidos de extrema-esquerda e da extrema-direita, bem como o seu papel na cena política. Confundem alhos com bugalhos, simplificando, quiçá por má-fé, questões tão diversas.
Esta é uma falácia que apenas serve ao branqueamento da extrema-direita, nacionalista, racista, xenófoba, misógina, machista e até criminosa, ao mesmo tempo que procura desvalorizar aqueles que se opõem à narrativa neoliberal, como se tudo e todos devessem estar ao serviço do capital financeiro.
Ora, a narrativa de extrema-direita manifesta-se das mais variadas formas: na descarada propaganda de manipulação de falsas notícias; na utilização de provocações políticas usando como braço armado, precisamente, os grupos da extrema-direita; no negacionismo face às alterações climáticas e no papel da ciência; no maior desprezo pelos direitos humanos e na desvalorização constante do factor trabalho na economia.
A intervenção capciosa ou directa dos seguidores das teorias neoliberais, na comunicação social e nas redes sociais, sem contraditório e apoiada no poderio económico que se lhe reconhece, é nefasta para a democracia.
Estas teorias, inspiradas pelos mesmos personagens que as levaram à prática nos Estados Unidos, de Reagan a Donald Trump, e no Reino Unido por Margaret Thatcher, estão a ser praticadas por toda a Europa com a complacência e a apatia das forças democráticas, incapazes de lhes fazer frente.
Creio ser esta uma razão forte para o crescimento da extrema-direita na Europa, pois impulsiona o individualismo mais feroz, cria demasiadas ilusões sobre o empreendedorismo, desmantela as organizações sindicais para impedir a capacidade de luta colectiva dos trabalhadores, destrói o Estado Social, desprotege os trabalhadores e privatiza tudo o que seja suscetível de gerar lucro, fazendo assim o jogo do capitalismo financeiro mais selvagem. Neste jogo a ofensiva cabe ao capital enquanto o mundo do trabalho tem cada vez mais dificuldade de resistência, pelo aumento da precariedade laboral que o fragiliza.
A submissão acrítica à narrativa neoliberal, bem como a aceitação da cultura de propaganda dos seguidores de Steve Bannon, o guru da extrema-direita americana, sem qualquer debate sério tem levado uma certa da juventude a aderir a essas ideias na Europa.
É neste contexto que a extrema-direita europeia diversificou os seus apoios, ao mesmo tempo que aceita apoios financeiros de Vladimir Putin, recebe também o patrocino político e ideológico do guru fascizante de Donald Trump, Steve Bannon, que tem percorrido a Europa a organizar os líderes da direita.
Em Portugal, a par da extrema-direita caceteira, que agrupa uma mescla de saudosistas do passado, a que se somam igrejas evangélicas e outros ressabiados, temos uma extrema-direita pretensamente liberal, bem-falante, fofinha, seguidora da escola de Chicago e das teorias de Milton Friedman, de quem recomendam livros, como Liberdade para Escolher ou Capitalismo e Liberdade, onde se expõem as teorias que serviram de enquadramento a governos como o de Pinochet, no Chile. Só assim de compreende que a Iniciativa Liberal se tenha apressado a cumprimentar Javier Milei pela sua vitória na Argentina. Este é o mesmo partido que tem o desplante de perorar sobre Democracia.
Sob a falácia da baixa de impostos, na realidade, o que pretendem é destruir os serviços públicos, entregando-os à voracidade da exploração capitalista.
A falsa pretensão de que apenas interessa a liberdade individual, num mundo de salve-se quem puder, põe em causa a natural solidariedade humana para uma sociedade mais justa.
A manifesta incapacidade critica e de promoção de debate por uma parte significativa da comunicação social, constrangida por ser propriedade e estar ligada precisamente a esta cultura da competição a todo o custo, tem permitido a ascensão de tais ideias.
Contrariando as ideias daqueles que acham que o mercado é suficiente para resolver tudo, numa espécie de Darwinismo social, convém lembrar o que dizia a recentemente falecida Maria Conceição Tavares, economista brasileira, “uma economia que não se preocupa com a justiça social, condena os povos à concentração da riqueza, ao desemprego e à miséria”. É este o debate indispensável, que cabe à esquerda.
A Esquerda, que não tem acesso ao poderio económico que a direita possui, tem que se reconstruir e actualizar, aprofundando o debate crítico comum, sem perder os seus princípios, no sentido de afrontar culturalmente a direita e os pseudovalores que propõe.
Só assim haverá futuro justo para todos e não apenas para alguns.