Cá para mim são verdadeiras. Palavras que terão sido proferidas pelo ministro da cultura no auge da discussão em torno das telas (falsas ou talvez não) expostas em A Cidade Global as quais são responsáveis pelo debate público. Correndo o risco de uma menos exata transcrição porque eu não as ouvi, não consigo deixar de citá-las. Porque cá para mim o que se impunha mesmo era uma análise laboratorial às telas em causa (dos pigmentos e das madeiras, também o recurso a raios X e infravermelhos). Ou outro exame qualquer que cortasse cerce esta dúvida teimosa. A observação ministerial não lembra ao menos responsável; o ministro falava para a televisão, é membro de um governo, há comentários que não se podem fazer porque, velozes, correm mundo. Vêm-me à memória os casos do jamais, do gado… Mas agora a curiosidade aguça-se porque, finalmente, “pinturas suspeitas vão a exame”, título do Expresso 18 março, sábado último.
A notícia é positiva, a pressão do debate público surtiu efeito. Mas diz o diretor do MNAA [Museu Nacional de Arte Antiga] que se trata de satisfazer uma “curiosidade mórbida”. E eu a valorizar as questões deontológicas, de ética e também de rigor científico, tão convencida estou de que estes são fatores distintivos. Mórbida, essa agora! Mórbido é ter organizado uma exposição que se desenvolve exactamente em torno de telas duvidosas sem as ter sujeitado de antemão a exames científicos concludentes. Ah, tanta pressa em vir para a ribalta! Não referirei outra vez os encargos que a organização de uma exposição implica nem no prestígio profissional e institucional em risco. Uma exposição de que se fala pelas piores razões. Como os exames decorrerão a cargo de uma instituição nacional há décadas reconhecida pelo trabalho competente, pese embora tratar-se de tarefa muito ingrata nas circunstâncias criadas, cá para mim não sairemos logrados.
A exposição nas Janelas Verdes é medianamente interessante. Não me meto a avaliar as telas mas apenas a perceber os circuitos propostos pela exposição e também os novos mundos oferecidos. Na verdade, aquele roteiro e aquelas peças não aportam nada de novo, nada que não se tenha visto antes. Mas enfim, admitamos, que vale sempre a pena revisitar a temática considerando a renovação e alargamento de públicos. Dito isto, constatam-se desequilíbrios que deviam ter sido evitados: lado a lado, encontram-se peças que foram alvo de atenção muito desigual como é o caso entre uma obra impressa por Valentim Fernandes devidamente identificado e outra de Francisco de Melo sobre cuja personalidade nada se adianta. Se os visitantes não sabiam quem foi Valentim Fernandes, aprenderam; mas se não tiverem informação sobre Francisco de Melo, e a sua importância, permanecerão incólumes. Que bom! Esta inconsistência no tratamento acontece com várias peças mormente com pintura portuguesa: Gregório Lopes merece uma explicação mas a mesma sorte não bafejou Frei Carlos ou Jorge Afonso. Com esta observação, não concluo que os conservadores e historiadores envolvidos não soubessem o suficiente para escrever um ou dois parágrafos. Foi a pressa, o pouco cuidado, a má coordenação ou falta dela. São estas as questões que estão em causa. Sente-se a urgência, alguma ligeireza, um voluntarismo que se impõe a um trabalho mais cuidado, logo, demorado. O MNAA não se tem destacado por intervenções ou iniciativas descuidadas. À semelhança de outras instituições nacionais, a pressão para apresentar trabalho, a exiguidade de recursos, a falta de técnicos devem ser ingredientes q.b. para explicar o que aconteceu. Não pode repetir-se, não se aceita a troca da qualidade pela quantidade.
A maior vantagem de todo este debate foi o ter mais uma vez chamado ao palco público o ministério da cultura, as suas prioridades e estratégia, o que já foi feito e o que ficou em fila de espera. Para a frente vejo muito pouco: o recuo (positivo) sobre a utilização do Forte de Peniche, a aquisição da colecção Miró, a intervenção em Foz Côa. Volto-me para trás, ih, a fila não acaba! Os diplomas legais que não saem, as verbas diminutas que tudo empanam, os concursos públicos para as artes que não arrancam… Quinze meses de governação e a Ajuda, nada. Sem me espraiar deixo um registo que pode servir de mote: não há mais espaço ou tempo para abandonar a cultura porque permitindo isto, perdemos tudo. Até alguma energia que ainda possamos sentir.