De Kamala Harris a Alexandra Leitão

porBruno Maia

03 de novembro 2025 - 13:56
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Posso estar enganado, podemos todos estar enganados, mas olhando para Nova Iorque adivinha-se que o caminho para a esquerda é este: luta de classes na ponta da língua e conflito máximo em todas as frentes.

Há um muçulmano socialista nascido no Uganda que vai ser mayor de Nova Iorque. Um jovem racializado que disse que prenderia Benjamin Netanyahu se este passasse por Nova Iorque! Um muçulmano que vai às marchas do Orgulho LGBTI+. Na cidade que concentra em poucos metros quadrados algumas das famílias mais ricas do mundo, Zohran Mamdani concorre com uma plataforma política de conflito de classe, cujas principais bandeiras são o aumento de impostos para os super-ricos, transportes públicos gratuitos, o controlo das rendas e a criação de pontos de venda de bens essenciais públicos. Parece tudo tão contraditório com os tempos que vivemos, não parece? Só para os mais distraídos, nomeadamente a esquerda moderada ou o centro esquerda. Esses sim, andam muito distraídos!

A vitória de Donald Trump em 2024 é assinalável – porque conquistou o voto popular que tinha perdido para Hilary Clinton, porque o faz depois do desastre que foi a gestão da pandemia. Foram avançadas mil e uma explicações para o desaire de Kamala Harris, cada uma ajustada ao ponto de vista que o emissor pretende vender aos outros. Mas menos de um ano depois, olhando para o resto do mundo, conseguimos perceber o que aconteceu: a moderação é tóxica e Kamala Harris foi a rainha da moderação. Recusou condenar Israel pelo genocídio em Gaza e perdeu o voto jovem e muçulmano. Encontrou-se várias vezes com Lisa Chenney, mostrando que preferia a companhia dos conservadores aos progressistas do seu partido, como Alexandra Ocasio-Cortez.

No resto do mundo, já muitos perceberam a toxicidade que a moderação e o centro hoje em dia representam. Lula tem virado a sua propaganda à esquerda, assumindo-se como o presidente que confronta Trump, num mundo cheio de líderes, nomeadamente os Europeus, que se ajoelham perante o autoproclamado rei. Pedro Sanchez, à falta de politicas económicas de esquerda, virou-se para Gaza e assumiu-se como um dos grandes lideres no combate ao genocídio. Em França, contra o autoritarismo de Macron, venceu uma coligação de esquerda, cujo parceiro maioritario é a esquerda radical de Melanchón, sob os auspícios de um programa político económico radical. No Reino Unido crescem os verdes após a eleição de um novo líder mais à esquerda, mais virado para o combate à desigualdade económica e à oligarquia financeira, assim como explode o novo partido de esquerda, ainda não formalizado, de Sultana e Corbyn, tudo isto um ano depois da maioria absoluta do Labour. Na Irlanda vence uma mulher de esquerda, ativista pró-palestina. Na Alemanha cresce o Die Linke, depois de uma longa campanha porta-a-porta e do desastre que foi a coligação do centro esquerda com os verdes.

Em Lisboa, a esquerda construiu uma coligação oportuna para derrotar Carlos Moedas e falhou. Não foi capaz de mobilizar o eleitorado de esquerda, mesmo perante um adversário que gera forte reprovação. E um dos motivos principais, tal como com Kamala Harris, foi a imagem de moderação que Alexandra Leitão quis transmitir. Carlos Moedas jogou a sua cartada ao tentar colar Alexandra Leitão a uma posição de extremismo, usando o Bloco de Esquerda para isso. E Leitão passou uma parte significativa da campanha a tentar demonstrar que essa imagem era falsa e que ela era uma moderada. Caiu na esparrela de Moedas. Tal como Kamala Harris. Ao contrário do que fez Mamdani em Nova Iorque, Leitão não foi capaz de mobilizar o eleitorado de esquerda, não se distinguiu em nenhuma proposta mobilizadora para Lisboa, e isso significou a derrota. Porque o centro é um lugar em desertificação. O comentariado nacional, mesmo o que é conotado com a esquerda, alinhou no diapasão da direita e decidiu culpar Mariana Mortágua e o Bloco de Esquerda – são tóxicos dizem! Como quem diz: qualquer coisinha de esquerda é evitar, vamos mas é correr para o centro. Viu-se! E tem-se visto por esse mundo fora!

Nada disto deve servir para ignorar o profundo estado letárgico em que se encontra toda a esquerda em Portugal. Podemos passar os próximos anos a fazer autocríticas, a procurar culpados, seguramente há espaço e reflexões muito úteis que nos farão crescer enquanto coletivo. Mas não vamos encontrar saídas para esta crise profunda, que se anuncia prolongada, se não formos capazes de olhar para o resto do mundo e retirar lições e ideias para o futuro.

E onde há esquerda a crescer, há um agudizar do conflite de classe! Não quero com isto cair na ratoeira criada por alguma direita e secundada por alguma esquerda que diz que o problema da esquerda é que abandonou a luta de classes em favor de identitarismos. Acho que devemos afirmar o oposto disto: se é verdade que o conflito de classe é a saída para a acontonamento da esquerda em Portugal, como vemos acontecer em Nova Iorque ou França, a esquerda para crescer não recua um milímetro nas lutas todas. Não ficamos reféns da teoria do wokismo e do marxismo cultural, estratégias políticas que a direita desenhou como armadilha para apanhar todas as esquerdas: da radical à moderada. Não vamos esquecer as pessoas trans, abandonar os imigrantes à sua sorte ou esconder o nosso feminismo: pelo contrário radicalizamos ainda mais e visibilizamos todas as causas sem vergonha ou medo. Quando eles falam em casas de banho ou pronomes, nós saímos à rua para lutar contra a discriminação e visibilizar todas as formas de opressão.

A esquerda, nomeadamente o Bloco, ainda não encontrou a forma, o formato, ou a estratégia, se assim preferirem, para cavalgar o conflito de classe. Parece-me pobre e defensivo, achar que é a defesa da constituição que o faz. Há uma mudança acelerada de regime: a maioria de direita encena uma mudança constitucional que promete mudanças de essência na constituição que resultou do pós-revolução. A legislação laboral apresentada pelo governo da AD, inicia já esse caminho de destruição das defesas constitucionais do estado social e da solidariedade. Já no primeiro ano de governo, a tentativa de exclusão dos imigrantes do acesso ao SNS, enunciava o que estava por vir. A essa mudança de regime o Bloco não deve e não vai acantonar-se no campo defensivo das “conquistas de abril”. Pelo contrário, temos de sair da defesa e passar ao ataque. À apresentação de propostas e alternativas de um outro regime que recuse o passado, a nostalgia e o saudosismo e se projete no futuro através da polarização do conflito de classe. E que não claudique perante a pressão da direita e da extrema-direita e, sobretudo, que não molde a sua ação perante as acusações de populismo do consenso falso do comentariado nacional.

Centrar o debate sobre o estado atual da esquerda a uma mera discussão sobre alianças com o PS ou o PCP, é também um debate fraco e defensivo. Nem a esquerda pode encolher-se sobre o seu próprio umbigo quando avança a extrema-direita em direção ao poder – somos responsáveis pela construções de todas as alianças possíveis para derrotar o fascismo; nem pode abdicar de protagonizar a disputa de classe de alta intensidade que a poderá fazer crescer. E, sinceramente, discutir em 2025 alianças com o PCP, é uma parábola anestesiante: nestes 25 anos nunca esperamos pelo PCP, não o faremos agora que o sectarismo está extremado. Se a dita esquerda moderada quer ficar agarrada ao status quo e aos poucos privilégios que ainda tem e que se esfumam lentamente, perfeito, pode piscar o olho à esquerda conservadora e sectária, estão muito próximos nesse caminho.

Não somos especiais, não somos diferentes, não vivemos isolados. Somos uma pequeníssima parte de um mundo imenso em ebulição, em transformação acelerada. Aprendamos com essa imensidão. Podemos e devemos discutir tudo: a coordenação, a nova direção, a renovação, os erros do passado, os erros do presente, as pessoas, os deputados. Mas esse tudo só servirá para alguma coisa se formos capazes de, coletivamente, construir uma força política, um movimento que disputa o centro e a extrema direita, criando conflito de classe de alta intensidade, desde os núcleos de militância mais pequenos ao parlamento, na rua e nos sindicatos onde não desistimos de disputar o poder contra a burocracia instalada.

Posso estar enganado, podemos todos estar enganados, mas olhando para Nova Iorque adivinha-se que o caminho para a esquerda é este: luta de classes na ponta da língua e conflito máximo em todas as frentes.

Bruno Maia
Sobre o/a autor(a)

Bruno Maia

Médico neurologista, ativista pela legalização da cannabis e da morte assistida
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