Estamos a cerca de mês e meio das eleições legislativas em Portugal. Na última semana, dois líderes de partidos supostamente ecologistas “tweetaram” nas suas contas oficiais imagens geradas por inteligência artificial (IA) generativa a imitar o estilo de desenho animado dos Studios Ghibli, de Hayao Miyazaki.
Pedro Nuno Santos, o líder do Partido Socialista que no último programa para as legislativas de 2024 falava de ambiente e clima e de reduções de emissões de carbono, gerou uma imagem de si próprio e fez uma piada sobre animação. Inês de Sousa Real, do PAN, um partido que se afirma como ecologista, gerou uma imagem na Futurália, feita com a participação de jovens que têm o seu futuro ameaçado pelas alterações climáticas.
Isto é problemático por duas questões: a utilização indiscriminada da IA está a dar cabo dos recursos do planeta e a usurpação indiscriminada de estilos e obras sem lugar a pagamento de direitos de autor está a dar cabo da vida profissional dos criativos.
Ignorância ou hipocrisia?
Com a falta de recursos do planeta, não nos podemos dar ao luxo de brincar com IA generativa
Um artigo do MIT chama precisamente a atenção para o impacto da IA no ambiente, incluindo o aumento da utilização de eletricidade e do consumo de água. Esta tecnologia requer uma utilização intensiva de energia, o que implica um aumento de emissões de carbono. Para além do impacto no consumo de energia, é necessário um consumo enorme de água para arrefecer o hardware usado, e dá-se um aumento na procura de computadores de alta performance, cujo fabrico e transporte também causa impacto direto no ambiente.
Estima-se que, em 2026, o consumo de energia dos centros de processamento de dados atinja os 1,050 terawatts, colocando-os no quinto lugar a nível global, entre o Japão e a Rússia.
Até a Google vai recorrer à energia nuclear para alimentar os centros de processamento de dados de IA.
Isto não é sustentável.
Não faz sentido querer salvar os jacarandás enquanto geramos imagens nossas em IA generativa
A 20 de março, a depressão Martinho fez estragos em todo o país, com rajadas de vento superiores a 100 km por hora. Árvores derrubadas, muros caídos, pessoas desalojadas, um rasto de destruição. Uma pequena amostra do que será o nosso futuro com as alterações climáticas.
Tivemos nesta última semana de março uma petição com 52 mil assinaturas para salvar (e bem) os jacarandás na Av. 5 de Outubro em Lisboa – árvores centenárias e fundamentais no arrefecimento da cidade em picos de calor. Árvores que o edil de Lisboa quer cortar e transplantar para criar um parque de estacionamento privado com 400 lugares.
Quantas dessas pessoas que assinaram a petição usaram o gerador de imagens em IA? Quantas árvores e quanta água foi desperdiçada num ato que não passa de pura vaidade?
As imagens Ghibli em IA são o novo chocolate do Dubai
O lançamento do novo gerador de imagens do ChatGPT nesta última semana tornou-se viral, a julgar pela quantidade de utilizadores de Twitter que inundaram a timeline com fotos pessoais, memes e de personalidades e cenas de filmes – incluindo o Interstellar, um filme sobre a Terra como planeta inabitável no futuro – ao estilo Ghibli. Foi uma febre tal que tiveram de impor limites, uma vez que o ChatGPT não estava a conseguir dar resposta a tanta procura, chegando a crashar.
Ironicamente, Hayao Miyazaki, co-fundador dos estúdios Ghibli – o estúdio de animação japonês que criou obras-primas como “O meu Vizinho Totoro”, “A Viagem de Chihiro” e “Castelo Andante” –, há muito que se posiciona assumidamente contra a IA generativa, tendo declarado em 2016 o seguinte: “Jamais desejarei incorporar esta tecnologia no meu trabalho” e “sinto fortemente que isto é um insulto à própria vida”. A OpenAI fez questão de não o respeitar numa jogada de poder. De referir que Miyazaki passou a vida a fazer filmes de animação antifascistas e contra o autoritarismo. Basta ver o filme “Porco Rosso”, onde se encontra a citação “antes ser um porco que um fascista”.
Para os fãs do estilo de Miyazaki, e muitos dos outros que descobriram o seu génio criativo desta forma perversa, é muito tentador usar esta ferramenta para aplicar a técnica ao seu foro pessoal – das imagens dos animais de estimação até às próprias –, mas é fundamental alertar que isto não foi autorizado pelos artistas dos Studios Ghibli. Onde fica a ética quando se treina a inteligência artificial com imagens de artistas? Como ficam os direitos de autor?
A “Ghiblificação” de crimes contra a Humanidade
Tal como denunciado pela conta de Instagram The Slow Factory, a memeficação de imagens está a ser usada na conta oficial da Casa Branca como ferramenta do governo fascista de Trump.
Como não podia deixar de ser, também o exército israelita (IDF) aderiu à moda Ghibli, tentando branquear, como sempre, a sua conduta genocida.
Para além da Casa Branca e do IDF, utilizadores de extrema-direita colocaram na timeline imagens como a do assassinato de George Floyd com o mesmo filtro. Esta “ghiblificação” é uma tentativa de normalização da desumanização de migrantes e de pessoas racializadas e de dessensibilização na escalada do fascismo e de medidas autoritárias.
O desrespeito pelos criativos
Neste momento, a Arte está a ser usada para alimentar uma ferramenta que a vai imitar, gerando em segundos aquilo que um artista demorou anos, ou até uma vida inteira, a conseguir fazer e aprimorar. E isto não deixa de ser um braço de ferro entre criativos e developers de IA, entre trabalhadores e bilionários da indústria tecnológica.
Sam Altman, CEO da OpenAI abriu o debate sobre direitos de autor treinando a ferramenta com obras sobre as quais não tem direitos. Usa como argumento que o que será criado por IA apenas imita as obras originais, sendo estas unicamente usadas para treinar a ferramenta.
As grandes indústrias de IA não têm qualquer respeito pelo trabalho e condições de vida destes artistas, que criaram obras de excelência e agora se veem explorados. Depende de nós respeitá-los.
A IA generativa é medíocre, deve ser regulada e utilizada de forma consciente
O uso de IA generativa tem de ser feito de forma responsável. Por muito que queime etapas e acelere processos, é preciso uma utilização cuidada, pois muitas vezes os resultados não são fiáveis. A título humorístico, veja-se o exemplo desta imagem, em que o nó da corda nem sequer dá a volta ao pescoço dos personagens:
Cada utilização de IA, mesmo que seja uma simples pergunta ao ChatGPT, consome cinco vezes mais energia do que uma simples pesquisa num motor de busca. E um motor de busca será sempre mais fiável, se tivermos em conta as fontes que aparecem nos resultados.
Pedir ao ChatGPT que escreva um email por nós gasta o equivalente a uma garrafa de água de 500 ml.
Será que os benefícios da IA generativa justificam o impacto no planeta? Justifica que os nossos filhos tenham como futuro um planeta inabitável, que tenham uma esperança média de vida inferior à nossa só pela preguiça de escrever um email ou querer ver a vossa foto ao estilo desenho animado Ghibli?
Fontes:
https://news.mit.edu/2025/explained-generative-ai-environmental-impact-0117