Nas últimas semanas temos assistido a capítulos decisivos na política do Brasil e dos EUA. A influência da extrema-direita no quadro mundial é evidente e terá tanto mais força quanto mais poder Trump e Bolsonaro mantenham.
Estes dois ex-presidentes, exemplos da política e do modus operandi da extrema-direita, já demonstraram que, para eles, a democracia só funciona quando vencem eleições.
A sua recusa em reconhecer a derrota e em colocar reiteradamente em causa a legitimidade das eleições validam, para os seus apoiantes mais militantes, a ideia de que o poder foi roubado e que o regime é por isso ilegítimo. Não preciso explicar o perigo que esta visão negacionista representa para a democracia. Se a massa de gente que acredita e apoia militantemente a tese do negacionismo eleitoral atingir determinada proporção e se tiver a força das armas o sistema democrático fica em risco.
Mesmo com as inúmeras falhas do desenho destes sistemas democráticos em específico e das democracias em geral, a aceitação das regras e o reconhecimento das eleições é condição essencial para a convivência democrática. Simplificando: não é possível jogar um qualquer jogo quando uma parte não aceita as regras. O “jogo” da democracia só pode ser jogado se as partes aceitarem as mesmas regras, mesmo que discordem de algumas.
A invasão do Capitólio nos EUA em janeiro de 2021 com o apoio de Trump - que pretendia concretizar um golpe de estado - e as manifestações no Brasil com o apoio de Bolsonaro a exigir a intervenção militar - outro golpe de estado - não deixam dúvidas do modus operandi da extrema-direita.
No Brasil, a vitória de Lula foi uma vitória da resistência e da democracia, ainda que seja claro que as dificuldades no futuro imediato sejam muitas. À hora que escrevo não se conhecem os resultados finais das eleições intercalares desta semana para o congresso e senado dos EUA, mas parece ser claro que uma vitória em toda a linha da direita trumpista não se concretizará, apesar de ser quase certo que os republicanos dominarão o congresso.
Não é apenas do outro lado do Atlântico que a extrema-direita e a sua narrativa de ódio e política de retrocessos civilizacionais se enraízam na sociedade. A vitória da extrema-direita em Itália aumenta o número de países na UE governados por racistas que não respeitam os direitos humanos.
Nesta altura, há muito já se percebeu que o que se pensou ser a “exceção portuguesa” - que procurava explicar a ausência em Portugal de um forte partido de extrema-direita - não existe. E a extrema-direita portuguesa atual, tendo as suas características próprias, no essencial segue a mesma linha das diversas extremas-direitas. E, para além disso, apoia-os aberta e publicamente mesmo depois destas procurarem colocar em causa a democracia. A invasão do Capitólio ou as manifestações de negacionistas bolsonaristas brasileiros em nada melindram o apoio do Chega a Trump e Bolsonaro.
Foi com estes negacionistas da democracia que o PSD nos Açores firmou um acordo de governo. E é com estes que Montenegro mantém um namoro, cujo último capítulo é o anunciado projeto de revisão constitucional apresentado a reboque do projeto da extrema-direita.
A direita nos Açores tem companhias que dizem muito sobre quem ela é. Companhias que não são uma imposição, são uma clara opção de direção política do PSD, do CDS e do PPM. De Bolsonaro a Bolieiro há um Chega de distância. Não nos iludamos quanto aos riscos que isso representa para a democracia no futuro.