Enquanto se desenrolava o caos e a dor dos incêndios, algumas vozes se levantaram, entre a cacofonia habitual, para suscitar um alerta fundamental: os incêndios que o país enfrentava naquela semana não eram domináveis; e não o eram porque o país se encontrava sujeito a um fenómeno meteorológico "completamente anómalo". As palavras são do climatologista Carlos Câmara, que afirmava nunca ter presenciado nada semelhante em vinte anos de exercício da profissão. O climatologista, bem como outros colegas, afirmou que a energia libertada pelos incêndios em curso atingiu valores extraordinários (entre os 800 e os 1.000 ou mais megawatts), dando-lhes uma intensidade insuscetível de controlo. Durante aqueles dias reuniram-se condições extremas perfeitas para gerar incêndios dantescos como aqueles a que assistimos: a coincidência entre uma vaga de calor, ventos de leste muito intensos e baixos níveis de humidade. A respeito desta conjugação de fatores, Carlos Câmara concluiu: "Com as alterações climáticas, dias excecionais como estes vão aumentar, vão tornar-se dias mais frequentes". Por conseguinte, incêndios incontroláveis habitarão com muito mais frequência a vida coletiva nacional.
A emergência climática é o segundo "elefante na sala", a par do eucaliptal e da associada indústria da celulose. Apesar de temática começar a encontrar algum espaço no debate público, está longe de adquirir a centralidade necessária. As previsões científicas para o território nacional deveriam alarmar-nos seriamente e espoletar ação governativa bem mais incisiva e célere do que aquela a que temos assistido.
O Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, conhecido pela sigla inglesa IPCC, classifica o Sul da Europa como uma região particularmente vulnerável aos impactos das alterações climáticas. A região do Mediterrâneo, de que Portugal faz parte, será cada vez mais afetada por incêndios de grandes dimensões. Segundo os dados disponíveis, os incêndios florestais em Portugal tendem a ocorrer durante ou logo após ondas de calor, sendo que a frequência e severidade deste fenómeno aumentará em consequência do aumento da temperatura global. Ao calor extremo acresce a redução da precipitação no território nacional, que provocará a diminuição da humidade dos solos, contribuindo também para a severidade dos incêndios. Em cima de tudo isso, a maior recorrência e agressividade de ventos fortes e outros fenómenos decorrentes da grande instabilidade do ar incrementarão o perigo e a dificuldade de combate aos incêndios.
Nada disto é novidade. A comunidade científica tem vindo a levantar alertas desde o século passado; e por cá já tivemos várias oportunidades de experienciar, em primeira mão, a força subjugadora das condições climatéricas extremas – basta recordar o "sopro do diabo" que investiu sobre Pedrógão Grande em 2017.
Uma das manifestações mais exasperantes do espírito semiperiférico da elite política e empresarial portuguesa é a ilusão cega com que a emergência climática é encarada
Uma das manifestações mais exasperantes do espírito semiperiférico da elite política e empresarial portuguesa é, precisamente, a ilusão cega com que a emergência climática é encarada. Quando olhamos para a geografia dos impactos, atuais e futuros, das alterações climáticas, é incontornável a posição de especial vulnerabilidade em que se encontra o território nacional. Aqui como em tantos outros domínios, o sul da Europa é mesmo o Sul do Norte Global: mais vulnerável ao risco, com menor capacidade de resposta e recuperação e eternamente preso numa teia de relações desiguais de dependência que limita a autodeterminação nacional. Apesar dessa posição subalterna ser cada vez mais evidente, a política nacional mantém-se alegremente subserviente aos interesses das grandes potências europeias, alinhando com uma trajetória de descarbonização que significará, para o nosso território, um estado de catástrofe permanente.
Não será possível enfrentar os incêndios florestais sem conferir absoluta prioridade à resposta à emergência climática em curso. Essa prioridade exige que se reconheça, de uma vez por todas, que o território nacional enfrenta níveis de risco particularmente trágicos. A política "verde" do eixo franco-alemão nunca nos poderá servir, porque pressupõe uma margem de "desconto" que, na nossa latitude, se traduzirá num aumento dramático das ondas de calor, dos períodos de seca, das condições meteorológicas extremas e, por conseguinte, dos incêndios florestais.
Em vez de ponderar esburacar metade do território para minerar lítio destinado a alimentar a indústria automóvel alemã, precisamos de nos ocupar com a construção de uma rede de transportes públicos digna desse nome, com ampla cobertura territorial, condições de conforto adequadas ao séc. XXI e totalmente eletrificada. Em vez de oferecer a terra à indústria fóssil pintada de verde e autorizar que um novo gasoduto corte o país a meio para transportar gás para o resto da Europa, precisamos de investir, com a maior urgência, em energia renovável descentralizada, na conversão de todos os telhados e na melhoria da qualidade energética dos edifícios. Em vez de alinhar com as políticas energéticas hipócritas da União Europeia, que classificam a queima de biomassa como energia "verde", precisamos de reconverter e regenerar as nossas florestas, reconhecendo o valor inestimável de uma floresta biodiversa, não só para o funcionamento dos ecossistemas de que dependem as necessidades humanas básicas, como também para a captura e regulação do ciclo de carbono. A política climática é, para nós, uma questão de sobrevivência, e não uma simples aritmética com a qual os mesmos de sempre podem lucrar.
Artigo publicado em Sábado a 29 de setembro de 2024