Por cá, estamos num momento em que a abjeta propaganda do ódio subiu à tribuna parlamentar e visou crianças. E em que passámos a ficar tão habituados com isto que a indignação parece um pormenor.
O partido de extrema-direita Chega divulgou supostas listas de crianças integradas em escolas portuguesas e que têm nomes considerados estrangeiros. E o seu problema não é a mentira que conta sobre a preferência que estas teriam relativamente às crianças portuguesas nas matrículas. O seu problema é tão só e simplesmente que estas crianças existam.
Por debaixo das listas, nada escondido, antes pelo contrário, está a ideia de que estas crianças estariam a invadir o país, que nos estariam a roubar os nossos lugares, que deveriam ser expulsas.
Ao mesmo tempo, aqui ao lado, o ódio está já num outro patamar. A partir de notícias falsas, repetidas em Espanha pelo Vox e em Portugal pelo Chega, como demonstra a Lusa, organizam-se caçadas aos migrantes.
O palco é Torre Pacheco, localidade de Múrcia, em que um terço dos habitantes são imigrantes, a maior parte ganhando baixos salários na agricultura intensiva. Ninguém se queixa dos produtos da sua atividade e quase ninguém menciona os lucros dos seus patrões. Assim como poucos se queixarão dos outros estrangeiros que a pouca distância enchem as praias do Mar Menor.
Foi nesta comunidade que ocorreu a ignóbil agressão a um idoso, alegadamente por três jovens de origem magrebina, caso ainda em investigação policial. Depois do ocorrido, os vizinhos, de todas as proveniências, reagiram manifestando-se juntos contra a violência.
Mas a máquina do ódio já estava em funcionamento a partir de grupos de Telegram e outros meios. A extrema-direita culpou todos os imigrantes e as hordas vindas de vários pontos de Espanha começaram a reunir-se para atacar a zona e fazer uma "caça ao imigrante". Alguns prometiam mesmo enviar os migrantes que aí vivem "de volta a Alá".
O seu modus operandi é o mesmo do que noutras circunstâncias e de outras latitudes: explorar seletivamente um crime em que tenham estado envolvidos (ou aparentarem estar, para eles vai dar ao mesmo) imigrantes, amplificar as tensões e generalizar a culpa a todos os migrantes e à esquerda que os ajudaria na sua "invasão", fazendo-o através de "notícias" e imagens falsas que instiguem o ódio. Por exemplo, um dos vídeos que circulam como se fosse deste caso é, pelo contrário, de um idoso a ser vítima de um ataque homofóbico cometido por espanhóis. Outro é de um idoso a cair sem intervenção de terceiros.
Tudo isto é mais que conhecido mas o Chega e os seus comparsas continuam a espalhar as mentiras sem quaisquer escrúpulos.
Entre a lista das crianças e a caçada aos imigrantes em Torre Pacheco a ligação não é apenas temporal ou de proximidade geográfica. Não é só porque a extrema-direita institucional portuguesa se associou diretamente à divulgação das mentiras da extrema-direita espanhola mais violenta e a sua agenda passou literalmente da lista das crianças para a caça ao imigrante. É também porque a estigmatização sistemática dos imigrantes por parte desta extrema-direita institucional é uma das bases da justificação da passagem ao ato violento. E a sua desculpabilização e/ou memorização desta violência racista encoraja ainda mais estes setores abertamente adeptos da violência física.
Terá sido com o objetivo imediato de não perder terreno num debate sobre migrações em que a direita governamental espera marcar pontos respigando as suas propostas que a extrema-direita institucional portuguesa fez o seu vergonhoso número parlamentar, pouco original mas com o efeito pretendido.
Alguns, à direita, sobrevalorizaram este interesse interesseiro para continuar manter a ficção de que nada daquilo é "verdadeiramente" a sério, só fogo de vista, de que com o Chega até se pode conversar porque é apenas "populista", estando apenas à procura de "marcar pontos" dizendo à "populaça" aquilo que ela quer ouvir.
Mas por muito que se esforcem já ninguém se pode deixar enganar. Como se fossem precisas mais provas, e elas são tantas acumuladas ao longo do tempo, o seu envolvimento direto na propaganda à volta da caçada aí está para mostrar mais uma vez que não são só manobras. A extrema-direita institucional é isso na sua essência: produz e alimenta-se do ódio ao "outro", muitas vezes o migrante mas há mais alvos; é o megafone das mentiras que estão na base de crimes racistas, os individuais e os coletivos.
Tudo isto é um perigo palpável, não é só uma conversa nem apenas mais um "post" nas redes sociais. A violência racista está aí, à solta, e a crescer. Há muito tempo que não se pode falar só de "casos isolados". Cabe assim escolher de que lado cada qual quer ficar porque com os pogroms e as caçadas aos estrangeiros não se negoceia.