Cúmplices da guerra

porAntónio Lima

24 de março 2026 - 21:39
PARTILHAR

Vangloriar-se da utilização dos Açores como instrumento da guerra imperialista de Trump, como fez o Presidente do Governo Regional, constitui uma cumplicidade consciente que ignora as consequências terríveis da guerra.

O ataque dos EUA e de Israel ao Irão aprofunda a tentativa de impor a política da canhoneira sobre a lei e o direito internacional, que deveriam garantir regras e paz global. As grandes potências decidiram que o direito internacional é um entrave aos seus interesses e a lei do mais forte tornou‑se o instrumento a que recorrem para atingir mais rapidamente os seus objetivos.

Putin invadiu a Ucrânia. Na altura, a UE, os líderes europeus e os EUA condenaram a invasão, invocando o direito internacional para denunciar a ilegalidade. Hoje, são os EUA a atacar o Irão, após ameaças de anexação do Canadá e da Gronelândia; depois do ataque à liderança da Venezuela, mantendo o regime, agora como vassalo; após ameaças à Colômbia e ao México. Hoje cercam Cuba e ameaçam tomar o país. Dos líderes da UE, com a digna exceção de Espanha, não se ouviu uma palavra de condenação.

Vivemos num mundo sob ameaça do proto ditador Trump. Ditadura ou democracia não é o critério para ser alvo. Não é o facto de o terrível regime teocrático de Teerão oprimir o seu povo que leva Trump a atacar. Outras ditaduras igualmente tenebrosas, como a Arábia Saudita, recebem honras como poucas na Casa Branca. Aliado ou adversário os alvos são escolhidos à medida dos interesses. A ameaça aos povos não é apenas militar, inclui a aplicação tarifas à la carte.

Portugal assume um posicionamento lamentável, sem princípios e verticalidade. A autorização para a utilização da Base das Lajes, contribuindo assim para que Trump destrua o que resta do direito internacional, enfraquece o mundo baseado em regras. Nada temos a ganhar com um mundo regido pela força das armas — e nem é preciso lembrar que não temos força alguma. Perdemos porque ajudamos a criar um mundo mais perigoso, que deixaremos às gerações futuras. Um mundo em que os nossos filhos e netos mais facilmente serão chamados a morrer em guerras decididas por ditadores, imperadores sanguinários ou meros loucos com poder desmedido.

Vangloriar-se da utilização dos Açores como instrumento da guerra imperialista de Trump, como fez o Presidente do Governo Regional, constitui uma cumplicidade consciente que ignora as consequências terríveis da guerra. O que tem o Presidente do Governo a dizer sobre as 110 meninas assassinadas por mísseis numa escola? E quem vai pagar a crise que a guerra já está a gerar? É para isso que serve a nossa “centralidade estratégica”? Eu prefiro que não sejamos mais cúmplices!

António Lima
Sobre o/a autor(a)

António Lima

Deputado do Bloco de Esquerda na Assembleia Regional dos Açores e Coordenador regional do Bloco/Açores
Termos relacionados: