Muitos de nós crescemos a ouvir a mesma frase repetida como um mantra: estuda muito para conseguires viver bem. Tira um curso superior, faz-te à vida, não contes tostões ao fim do mês como nós tivemos de contar. A mensagem era clara, mesmo quando vinha embrulhada em cansaço: queriam que tivéssemos oportunidades, mesmo quando as deles foram poucas. Queriam que o mundo também fosse nosso. Foi com essa promessa que muitos filhos de casas modestas chegaram ao ensino superior. Não por capricho, não por luxo, mas por acreditarem que a educação era o elevador social que o país nos dizia existir.
Anteontem, porém, as declarações do atual ministro do Ensino Superior lembraram-nos outra verdade — mais antiga, mais crua: neste país, a pobreza continua a ser vista como defeito de fabrico. Ao afirmar que a degradação das residências universitárias se deve, em grande parte, ao facto de acolherem estudantes de baixos rendimentos, o ministro não falou de edifícios. Falou de pessoas e fê-lo como quem aponta o dedo ao elo mais fraco, como se as origens humildes fossem um fator de corrosão, como se a precariedade fosse um vírus que os pobres transportam consigo. É preciso dizê-lo com clareza: os estudantes de baixos rendimentos não estragam o sistema. O sistema é que foi desenhado para funcionar melhor para quem nunca precisou dele.
Ao contrário do que insinua este discurso, a maioria dos estudantes mais desfavorecidos nem sequer consegue vaga numa residência universitária. As residências são poucas, insuficientes e muitas vezes indignas. Não são refúgios — são filtros. E quem fica de fora enfrenta rendas impossíveis, quartos sem condições, casas partilhadas por excesso, transportes longos e caros. Ainda assim, insiste-se em chamar-lhes alojamentos temporários, como se três anos de precariedade não moldassem uma vida inteira, é facto que a precariedade, quando dura três anos, deixa de ser temporária e passa a ser identidade.
Este discurso não é inocente. Ele revela uma ideia profundamente enraizada na direita portuguesa: a de que os apoios sociais são uma concessão vergonhosa, uma espécie de favor concedido a quem não soube escolher melhor os pais. Como se estudar fosse um privilégio reservado a quem nasce com estabilidade financeira e não um direito garantido por um Estado que se diz democrático.
Chegamos à universidade pelo mesmo motivo que os filhos dos ministros: para estudar, para aprender, para sermos melhores. Chegamos com menos rede, menos margem de erro e muito mais medo de falhar. Honramos pais que trabalham em empregos precários, que limpam, constroem, servem, para que possamos comer, regressar a casa e ter um lugar onde dormir. Não chegamos para degradar — chegamos para resistir. E convém lembrar algo que este tipo de discurso parece esquecer: médicos, enfermeiros, engenheiros, professores, investigadores, não nasceram todos em elites. Muitos vieram de casas onde o salário não esticava e as contas acumulavam. Foram à luta com as ferramentas que tinham e talvez seja por isso que hoje sabem o valor de um sistema público forte.
O que verdadeiramente degrada o ensino superior não são os estudantes pobres, mas um Estado que desistiu deles. Um Estado que prefere apontar culpados em vez de assumir responsabilidades. Que corta investimento, adia manutenção, ignora alertas e depois se escandaliza com as consequências da sua própria negligência.
Dizem-nos que somos o problema, que chegamos para estragar o que nunca nos foi verdadeiramente oferecido, mas talvez o problema seja outro: um país que culpa os filhos pelas escolhas dos pais, os estudantes pelas falhas do Estado, os pobres por um sistema que sempre os quis fora. Os pobres assustam, porque provam que o privilégio não é sinónimo de mérito. Assustam porque, mesmo sem terem nascido no berço certo, chegam, estudam e ocupam espaço e isso incomoda profundamente quem sempre achou que o lugar lhes estava reservado. E é por isso que vale a pena lembrar — sem romantismos — que ninguém sai ileso da pobreza: uns porque a carregam todos os dias, outros porque a continuam a perpetuar.
Da próxima vez que o senhor ministro for atendido numa clínica privada, talvez deva perguntar ao profissional que o recebe que parte do ensino superior degradou para ali chegar. Se beneficiou de bolsas, de residências, de apoios sociais, talvez seja coerente levantar-se e procurar alguém que nunca precisou de nada. No fim, o tratamento será o mesmo — mas a consciência, essa, continuará ausente.
Não é possível degradar aquilo que o próprio governo abandonou. O que se degrada não são as residências — é o contrato social. O que se degrada não são os estudantes — é a ideia de que a educação deve servir todos. A educação não é caridade. É investimento e um país que trata os seus estudantes mais vulneráveis como problema está, na verdade, a declarar falência moral.