Tenho assistido com alguma perplexidade às reações do governo regional do PSD/CDS/PPM a um conjunto de problemas criados pelo governo ou sobre os quais recaem óbvias responsabilidades.
Não caio na leitura fácil e simplista de responsabilizar os governos por todos os problemas da sociedade mas uma das tarefas de um governo, para além de executar políticas que promovam o desenvolvimento da região, é resolver os problemas velhos e novos, evitando criar outros.
No início da legislatura, perante qualquer problema, o governo das direitas atirava as culpas para o anterior governo do Partido Socialista. Muitas vezes com razão, outras sem razão. Era a saída mais simples e até com alguma credibilidade, tendo em conta o pouco tempo de governação.
Todavia, com o passar do tempo e o surgimento de problemas novos, alguns criados pelo próprio governo, a desculpa já não poderia ser sempre “a culpa é do PS”. Só que em vez de assumir responsabilidades sobre as suas ações e omissões, o governo encontra sempre um bode expiatório para todos os problemas.
Vejamos três exemplos. No setor das pescas, que tem sido gerido com especial incompetência, o governo permitiu que se esgotasse a quota do atum patudo ainda em julho, não tomando medidas de gestão que permitisse que a quota não fosse esgotada logo no início do verão.
O esgotamento da quota prejudicou assim o valor de venda da espécie e o rendimento do setor. Mais grave ainda, a gestão incompetente (ou a ausência de gestão) levou à ultrapassagem dos limites de captura o que poderá significar no futuro reduções de quota para o país pelas instâncias internacionais porque isso tem consequências na sustentabilidade da espécie. Questionado sobre os motivos de não terem sido criadas medidas de gestão para evitar esta situação, o Secretário das Pescas culpa as organizações de produtores, ocultando o facto destas terem proposto ao governo planos de gestão aos quais o governo não deu resposta.
Na educação e perante mais uma manifestação de trabalhadores precários das escolas que estão prestes a ficar sem emprego, ao mesmo tempo que as escolas não abrem concursos suficientes, o governo acusa de forma desonesta os conselhos executivos por não solicitarem a abertura de vagas suficientes. O governo mente descaradamente. Ao ser confrontado com um problema criado exclusivamente pelo governo, não hesita em culpar os dirigentes das escolas que, na sua grande maioria, fizeram de tudo para ter os recursos necessários. Quem quererá estar num conselho executivo a partir de agora sabendo que tem na tutela alguém que os culpará de todos os problemas que surjam na escola para salvar a sua pele? Só se forem boys e girls da coligação.
Finalmente, confrontado o vice-presidente esta semana com os problemas ligados à pobreza em São Miguel, nomeadamente com o número de sem-abrigo em Ponta Delgada, Artur Lima diz que quer avaliar as associações que trabalham na área, escondendo o facto que estas associações têm contratos com o governo e desenvolvem as políticas determinadas por este. O que tem de avaliar é o falhanço das suas políticas sociais.
Em suma, como se demonstra, a culpa nunca é do governo porque há sempre um bode expiatório com quem casar a culpa porque o governo nunca assume a sua responsabilidade.