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Cruzeiros poluem como um milhão de carros

Apesar de Lisboa ter sido eleita Capital Verde Europeia em 2020, não se conhece qualquer medida para a redução da poluição emitida pelos navios de cruzeiro.

Os navios de cruzeiro que vêm a Lisboa têm enormes consumos energéticos, mesmo quando estão estacionados. Queimam dezenas de toneladas de combustível, que é muito poluente e possui teores de enxofre até 100 vezes superiores aos dos outros meios de transporte. Em Lisboa, nunca desligam o motor porque falta um simples cabo elétrico. E isto faz muito mal à saúde de quem cá vive e trabalha.

Lisboa é a cidade europeia que mais navios de cruzeiro recebe (115 em 2017), a terceira com mais horas de estacionamento desses barcos (7.953 horas em 2017) e a sexta cidade europeia com mais exposição à poluição dos cruzeiros. E os navios de cruzeiro que nos visitam nunca desligam os motores.

Não há estudos específicos sobre a matéria em Portugal, mas no Reino Unido a questão foi estudada e os dados mostram que um navio de cruzeiro pode emitir poluição equivalente a um milhão de carros por dia e que a qualidade do ar no navio é equivalente ao das cidades mais poluídas do mundo.

Apesar de Lisboa ter sido eleita Capital Verde Europeia em 2020, não se conhece qualquer medida para a redução da poluição emitida por estes navios. Não se percebe como é possível que na Cidade Verde Europeia 2020 (ver artigo Lisboa é mesmo Capital Verde 2020?) o terminal de cruzeiros, inaugurado há dois anos e que custou 54 milhões de euros, não tenha as infraestruturas necessárias para reduzir os níveis de poluição.

É necessário resolver esta questão imediatamente, porque os estudos da Organização Mundial de Saúde indicam que a poluição do ar é uma das principais causas de doenças do foro cardíaco e respiratório, cancros do pulmão, AVC e mesmo doenças como a demência ou o Alzheimer. Quem vive em Lisboa merecia mais respeito.

Os carros são a maior fonte de poluição do ar em Lisboa e, por isso, é muito importante o anúncio da limitação do trânsito na zona da Baixa e Chiado, mas não podemos deixar para trás outras importantes fontes de poluição atmosférica na cidade, como o aeroporto (ver artigo Dez erros da expansão do aeroporto da Portela) e o terminal de cruzeiros. Só tratando destes problemas e adotando medidas sérias no combate à crise climática é que Lisboa será, de facto, a Capital Verde Europeia.

Artigo publicado no “Jornal Económico” a 10 de fevereiro de 2020

Sobre o/a autor(a)

Engenheiro e mestre em políticas públicas. Dirigente do Bloco.
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