Ao longo da História, têm sido várias as religiões a exercer pressão, repressão ou violência simbólica e institucional contra pessoas LGBTQIA+. Desde a Idade Média, a Igreja Católica, por exemplo, desempenhou um papel ativo na perseguição de práticas e identidades que desafiavam a moral sexual dominante. A Inquisição perseguiu sodomitas como hereges, associando o desejo homoafetivo ao pecado e à corrupção espiritual. Durante séculos, a homossexualidade foi tratada como doença, crime ou possessão demoníaca, visões profundamente enraizadas em dogmas religiosos que moldaram legislações e culturas repressivas em todo o mundo ocidental e não só. Desde os grandes impérios coloniais europeus, o cristianismo (especialmente nas suas formas católica e protestante) foi frequentemente instrumentalizado pelos colonizadores para justificar a ocupação e o domínio de territórios e povos, e o controle sobre os seus comportamentos, principalmente no que à sexualidade dizia respeito. O discurso da "salvação das almas" serviu sempre para mascarar objetivos económicos e geopolíticos, e o “progresso moral” imposto às populações nativas era, muitas vezes, sinónimo de destruição cultural. Mesmo no século XX, em muitos países, a influência eclesiástica contribuiu decisivamente para a manutenção de leis que criminalizavam as relações entre pessoas do mesmo sexo e impediam qualquer reconhecimento de género diverso. Nos nossos dias, ainda existem dezenas de países onde a homossexualidade é criminalizada, alguns mesmo com a pena de morte.
Hoje, a luta pela libertação sexual e de género exige também uma crítica consequente às instituições religiosas que, historicamente, têm sido os pilares do cisheteropatriarcado. É bem claro que as religiões organizadas, especialmente aquelas com poder político e cultural consolidado, desempenham um papel central na repressão das sexualidades dissidentes, na imposição da norma binária e heterossexual, e na criminalização e estigmatização de identidades queer.
Ainda hoje, essa aliança entre moral religiosa e estruturas de poder político persiste. O recente relatório "The New Wave: How religious extremism is Reclaiming Power", elaborado por uma equipa de membros do Fórum do Parlamento Europeu para os Direitos Sexuais e Reprodutivos, referido numa notícia publicada pelo Jornal de Notícias revela que, entre 2019 e 2023, grupos religiosos e extremistas canalizaram mais de três milhões de euros para movimentos e associações portuguesas com agendas antiaborto, anti-género e de oposição aos direitos LGBTQIA+. O EPF, sigla em inglês, afirma que o objetivo destas organizações é "desmantelar décadas de progresso social", usando discursos que olham para direitos fundamentais "como uma ameaça" a valores tradicionais como a família e a ordem. Esse financiamento não é apenas uma ameaça ao direito das mulheres sobre os seus corpos — é também sintoma de um projeto ideológico mais vasto que visa reforçar uma ordem moral conservadora, onde as pessoas LGBTQIA+ continuam a ser alvo de silenciamento, exclusão e violência.
Urge afirmar que a emancipação plena passa também por uma rutura simbólica e política com esses sistemas de dominação espiritual que condicionam vidas e desejos. Temos que defender uma esquerda verdadeiramente laica, que não relativize práticas opressivas justificadas pela fé, e que tenha a coragem de enfrentar o privilégio das instituições religiosas na construção das normas sociais.
A nossa luta anticapitalista é também uma luta contra todas as formas de poder dogmático que naturalizam a submissão, o silêncio e a obediência — e que continuam, ainda hoje, a legitimar a violência sobre corpos queer, mulheres e pessoas dissidentes. A nossa crítica e a nossa prática têm que ser, acima de tudo, uma afirmação de liberdade: liberdade de pensar, de viver, de amar e de existir sem amarras divinas nem imperativos morais sagrados.