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A crise espanhola está resolvida?

Em Espanha (e não será assim em Portugal?), todos os acordos parlamentares são possíveis, desde que não ponham em causa o monopólio continuista do poder.

Uma eleição por ano, quatro anos seguidos, para chegar aqui: o debate desta segunda-feira, três horas em que o centro e a direita discorrem sobre quem ameaça quem (a Catalunha, os imigrantes, os partidos nacionalistas, as manadas de violadores que afinal são coisa pouca?) e Pedro Sánchez estende a mão ao velho rival, o Partido Popular, para um entendimento ou, pelo menos, para uma autorização para governar, mesmo que saia enfraquecido da contagem de votos no próximo domingo. A política espanhola volta ao ponto de partida, com a tentativa de reavivar o bipartidismo como disputa e como lugar de convergência, esse paraíso feliz para onde os partidos tradicionais querem voltar sempre que a vida lhes corre mal.

Naturalmente, olhar para eleições noutro país mobiliza um efeito de distância e até de perplexidade em que não somos chamados a decidir e tudo nos fica mais leve. Por isso, é tão curioso apreciar de fora a chuva de comentadores que, encerrada a maratona, ocupa as diversas televisões para classificar performances e declarar vencedores, por certo seguindo preferências já inscritas na vida de cada uma dessas pessoas (em Portugal é igual, antes de começar um debate já sabemos quem é que cada analista vai declarar “vencedor”). Mas o que esses comentadores não tentam esconder é que a notícia é a viragem do PSOE para um acordo à direita, o que se torna mais fácil com a possível recuperação do PP.

Consumido pelos escândalos de corrupção, o PP confia na passagem do tempo para obter a amnistia do esquecimento e aposta no enfraquecimento do Ciudadanos, a versão liberal da direita dura que durante tanto tempo governou a Moncloa. No entanto, há um risco nesta rearrumação, que é deixar o campo livre ao Vox, um partido que pode dizer tudo e o seu contrário como se estivesse a falar do fim do mundo, mas que vai beber nas tradições de uma direita ultraconservadora, marialva e saudosa do franquismo, onde tem muito por onde crescer. A aflição do seu líder quando perguntado porque cobrou 300 mil euros de salários e benesses num organismo oficial autonómico que agora propõe dissolver em nome do Estado centralista, é expressiva da vacuidade e da facilidade do empreendimento, mas também demonstra que neste mundo de aparências tudo é possível.

Fica então o governo para um entendimento entre o PSOE e o PP, o centro arruma-se com a provisória abstenção da direita no momento em que Sánchez tomar posse. Alguns meses de discussões sobre uma convergência à esquerda, durante os quais os socialistas aceitaram e depois recusaram a inclusão no governo de ministros do Podemos, demonstram que, afinal, o “arco da governação” sobrevive mesmo, talvez de forma mais radical: em Espanha (e não será assim em Portugal?), todos os acordos parlamentares são possíveis, desde que não ponham em causa o monopólio continuista do poder. Numa versão otimista, é um sinal de que alguma coisa já mudou, há temas que passam a ser objeto de negociação, incluindo tabus anteriores, como as privatizações ou os salários. Numa versão pessimista, o muro é o exercício efetivo do poder, que disso os partidos tradicionais não abdicam nem partilham. Espanha está a mostrar que o realismo é mais pessimista do que otimista, até ver.

Artigo publicado em expresso.pt a 5 de novembro de 2019

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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