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A crise e os exterminadores imaginários

"Isto só lá ia com um Salazar em cada esquina. Melhor, com um ‘exterminador implacável' em cada esquina." O masoquismo apolítico pede sangue e está pronto para soluções de austeridade, para grandes sacrifícios nacionais, desde que sejam para endireitar o país à força. Desejo de submissão à parte, e esse factor não será nunca menor numa conversa deste tipo, o único PECado que se encontra sob este ponto de vista no plano do governo para combater o eterno défice tuga é apenas vir do símbolo acabado do "político" no mau sentido da palavra e não de um herói imaginado fora da política.

"Não vale a pena, são sempre os mesmos que ficam a ganhar com estas coisas." Antes de percebermos do que se trata, sorrimos à resposta do ainda mais apolítico derrotismo absoluto. Afinal, este radicalismo aparente desmascara a verborreia que apoia os que são fortes a atacar os mais fracos, os grandes planos justicialistas que deixam o essencial na mesma, os ricos que nunca pagam as crises. Claro que o sorriso se desvanece com a inconsequência da sua lógica "quem se lixa é sempre o mexilhão". Afinal, mexilhão unido jamais será vencedor. E os mesmos de sempre estão destinados a ganhar e os políticos serão sempre maus e os poderosos sê-lo-ão sempre e quem se mexe contra eles é porque quer tacho. Há toda uma antropologia negativa nesta "Zé povinhação" que acaba por pagar a crise e apenas protestar desabafando no café.

Já a tirada agressiva-masoquista, por mais que esteja plena de um "absurdo desejo de sofrer", sabe no seu íntimo que não deseja ir até às últimas consequências do que afirma e que não quer mesmo finanças à Salazar: com uma mistura de colonialismo bacoco, ditadura, fechamento nacional, equilíbrio orçamental à custa da miséria. Afinal, o fado bem pode pedir que o tempo volte para trás que este permanece cruel. E Salazar não compra a crédito nem passeia no centro comercial...

Mesmo que um Sócrates em cada esquina seja apenas caricato, resta-lhe assim o realismo duro da política anti-crise que, mesmo repartida injustamente, se é dura é porque é justa. Resta o seu "aguentemos porque tem de ser assim" ou o seu desejo de vingança que se sobrepõe ao seu sentido de justiça ou mesmo ao seu interesse ao clamar: "bem feito para os funcionários públicos que não fazem nada! É merecido para os gajos que se alambazam com o subsídio de desemprego e não querem trabalhar! Eu até pago mais impostos só para os ver sofrer!" Assim haja heróis sempre para virar os remediados contra remediados ou remediados contra mais desgraçados.

Mas há um outro tipo de herói que não veste a antiga farda salazarenta e se apoia nos que se importam, apesar de tudo, de pagar mais impostos. Este discurso satisfaz mais o ímpeto anti-político do masoquista e fá-lo dizer: "Não me interessa que os ricos passem também a pagar a menos se eu por mim não pagar para essa cambada de chulos que são os políticos!" Em roupagens pós-modernas, este é o modelo da direita neo-liberal, o modelo do "exterminador implacável" que arrasa o monstro estatal. Nas finanças à Schwarzenegger, o governador da Califórnia que é, por si só, a 6ª maior economia mundial, baixar impostos radicalmente seria a receita daria "liberdade de escolha" sobre o uso do seu dinheiro a cada um e que permitiria colectivamente uma maior riqueza já que as empresas ficariam mais aliviadas. Um modelo que parte da nossa direita pensa que poderia ser alternativo ao pacote de Sócrates. Um modelo que fez com que o Estado mais rico dos EUA caísse na situação de "Estado falhado", falido. Um modelo que exterminou os melhores serviços públicos dos EUA e que deixou milhares de pobres sem apoio social.

E de Sócrates a Schwarzenegger vai a distância de um liberalismo mais ou menos musculado. Mas fica um consenso sobre quem é intocável, no plano fiscal e económico em geral, e sobre quem deverá pagar cada crise. Um consenso feito de privatizações e de ataques aos salários. Um consenso em que mesmo quando os impostos aumentem os serviços públicos nunca melhoram.

Houvesse ao menos um manguito não conformismo na resposta ao masoquismo...

Sobre o/a autor(a)

Professor.
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