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A crise e a esperança

2021 será ano de crise, mas com esperança renovada. Mas não queiramos sair da crise para voltarmos ao país que éramos. Temos de querer e construir um país muito melhor.

Termina hoje um ano profundamente disruptivo a nível global. A crise pandémica atinge todos os territórios e terá consequências duradouras, a vasta maioria delas profundamente negativas, a começar pelos quase 1,8 milhões de mortos, passando pelo aumento do desemprego e, consequentemente, da pobreza e da desigualdade social. Serão consequências assimétricas dentro dos países e entre países e blocos económicos.

A proximidade temporal das decisões tomadas pelas mais variadas instituições nacionais e internacionais ao longo deste ano não permite ainda uma avaliação do tempo de pandemia, que aliás ainda vivemos. Só o distanciamento trazido pelo tempo tornará mais nítidas as ações tomadas.

Todavia, hoje há uma esperança renovada. As vacinas que começam a ser aplicadas e que foram desenvolvidas em tempo recorde são a luz que começa a rasgar as tréguas que envolvem o mundo desde o início de 2020.

Como em tantos outros grandes avanços da ciência e da tecnologia, o desenvolvimento da vacina em tão curto espaço de tempo, só foi possível porque existia, para além da imprescindível investigação de base, sem aplicação prática imediata, uma linha de investigação seguida pela investigadora húngara Katalin Karikó. Esta investigadora chegou a ser despromovida pela Universidade da Pensilvânia insistir nela. Hoje é a tecnologia que salvará vidas e abre inúmeras perspetivas novas à medicina.

Mesmo perante os poucos resultados práticos imediatos, foi a sua investigação que permitiu que, quase da noite para o dia, surgissem várias vacinas. Assim como os imensos recursos públicos colocados à disposição das farmacêuticas para permitir o seu desenvolvimento. Por exemplo, a Moderna, empresa norte-americana que desenvolveu uma das primeiras vacinas, recebeu do governo dos EUA 2,5 mil milhões de dólares, para desenvolver a sua vacina.

Duas lições óbvias podem e devem ser retiradas deste processo. A primeira é a importância da ciência e da investigação fundamental para a humanidade. É a ciência onde assentam as bases das soluções para problemas de enorme complexidade que afetam a vida das pessoas e o planeta. Em tempos de negacionismos, não é demais reafirmar esse princípio tantas vezes esquecido em função do pragmatismo da aplicação prática imediata.

A segunda é que, com o investimento e os recursos certos, a humanidade é capaz dos mais incríveis avanços tecnológicos com potencial para melhorar muito a vida de milhares de milhões de pessoas em pouco tempo. Basta querer.

Mas a luz trazida pela vacina apenas começou a raiar e a enorme empreitada que é vacinação de grande parte da humanidade exigirá ainda mais recursos do que os que foram investidos para a desenvolver. Não é difícil, por isso, perceber que milhões de pessoas dificilmente terão acesso à vacina se os países mais ricos não assumirem a responsabilidade de a fazer chegar até elas.

O ano que amanhã começa será de grandes decisões. Os impactos sociais e económicos da crise pandémica serão mais duradouros do que a pandemia e a sua “vacina” exige igualmente enormes recursos e decisões corajosas.

A travagem a fundo de setores inteiros da economia, como o turismo e atividades relacionadas, associada aos elevados níveis de precariedade e de baixos salários de milhões de trabalhadores em inúmeros setores criam as condições para exponenciar os níveis de desemprego a nível global.

Os apoios públicos para segurar os setores mais afetados são fundamentais, mas também o são apoios sociais robustos, amplos e céleres para quem cai em situação de desemprego ou de rendimento insuficiente. Mas isso não basta.

Para além de uma mais forte proteção social para os tempos de crise, e não só, precisamos de uma recuperação económica que se faça pela valorização do trabalho e pela proteção do emprego. O país de baixos salários que temos não pode ser o modelo para a recuperação económica e para desbravar o caminho para o pós-Covid-19 em Portugal.

2021 será ano de crise, mas com esperança renovada. Mas não queiramos sair da crise para voltarmos ao país que éramos. Temos de querer e construir um país muito melhor.

Artigo publicado a 31 de janeiro de 2020

Sobre o/a autor(a)

Deputado do Bloco de Esquerda na Assembleia Regional dos Açores e Coordenador regional do Bloco/Açores
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