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A crise como teatro político

Entra finalmente em cena a crise política esperada. E, sob o pano de fundo da crise económica, a austeridade encena-se como alternativa à austeridade. Daí que a tragicomédia da vida política portuguesa seja de má qualidade: um entretenimento ligeiro para fugir à realidade, previsível e pastoso.

PEC, o enredo interminável

PECado de surpresa, Passos Coelho afirma solenemente: o teatro acabou. E o número teatral sobre o fim do teatro parece resultar. Escreve um jornal de referência que a sala gelou. Apesar disso, todos sabem que a interpretação de Passos Coelho é fraca. Finge sofregamente não querer o PEC IV por calculismo político, para que seja já a sua vez de ir receber ordens da senhora Merkel. Por sua vez, Sócrates, que lhe tinha induzido a deixa, sabe como prosseguir a peça: o seu balão de oxigénio é o discurso “ou eu ou o FMI”, criador de instabilidade, o PSD será o filme de terror.

A crise política é esta dramatização vazia, a cortina que esconde o pacto político profundo para emagrecer o Estado Social e fazer pagar a crise aos/às mais pobres. Dramática mesmo é a nossa vida de austeridade imposta. O PEC é já o enredo interminável de um filme de terror social. E os que se declaram protagonistas da vida política portuguesa são apenas candidatos a produzir as suas sequelas.

O teatro de guerra

Este enredo quase ofusca os outros do mesmo género. Vejamos apenas dois deles. Cavaco, auto-encenado salvador da pátria, antes mesmo do seu “dia da raça” quis “distinguir a intervenção militar que permitiu que um País com a dimensão e os recursos de Portugal pudesse manter o controlo sobre três teatros de operações distintos, vastos e longínquos” (…) “o que demonstra o esforço do País e dignifica a memória dos seus combatentes.” Entre o elogio da eficácia militar, os apelos à mocidade portuguesa para que se empenhe no futuro como a geração da guerra se empenhou na guerra e os apelos ao sentimento e orgulho dos ex-combatentes, o discurso sobre o teatro da guerra esqueceu-se que o esforço do país e a determinação da juventude de então foram forçados, que a guerra tinha um outro lado e as palavras colonialismo e ditadura nunca estiveram perto de ser utilizadas. Cavaco, que volta a actuar agora com a máscara da seriedade que quase lhe caiu na última campanha, reescreve selectivamente o passado com tons de saudosismo perigoso.

Cheirando o descontentamento e as possibilidades populistas abertas pela crise, Cavaco sentiu ter um palco só para si. Percebe-se assim que tenha sido oportunista ao ponto de apelar a sobressaltos cívicos nas vésperas da manifestação de dia 12 de Março, fingindo não ter tido qualquer responsabilidade na estruturação do actual modelo de ensino superior e no caminho da precarização do emprego. Será precisa uma memória que não tenha sido escavacada para recordar ainda o que o cavaquismo reservava para os jovens que queriam “fazer ouvir a sua voz”, que “não se acomodavam nem se resignavam”: o bastão. Salvaguardados, obviamente, os jovens de então que agora se preparam para entrar na cena governativa. E adivinha-se que os cavacos do futuro não vieram sobressaltar-se nas ruas porque já têm a vidinha tratada e porque a sua política é o trabalho.

Teatro nuclear

Por último, o teatro da verdadeira tragédia e da farsa descarada. O terrível desastre do Japão terá colocado em causa em todo o mundo a segurança da energia nuclear. Em todo o mundo? Não. Uma pequena aldeia resiste. Patrick Monteiro de Barros insiste no projecto do nuclear para Portugal e o seu porta-voz, Pedro Sampaio Nunes, vê o que mais ninguém viu e afirma que o sismo do Japão teria provado a segurança das centrais nucleares, “sem libertação significativa de radioactividade”, garantindo que a segurança do nuclear português seria superior à do japonês. O teatro dos interesses chega a ser uma comédia sinistra quando instrumentaliza a tragédia alheia para o seu negócio.

Teatro da rua

Para além da instrumentalização passageira de Cavaco, os outros principais actores políticos vão fingindo que não se passou nada na rua. Talvez pensem que, se fingirem muito, a rua se esquecerá da força que sentiu. Talvez pensem que o discurso repetido da política da inevitabilidade há-de prevalecer. Talvez pensem que a televisão é o palco único possível da política e que esse palco é deles todos os dias. Mas o dia 12 de Março provou que a política pode mudar de palco. Provou que a inevitabilidade imposta se desfaz quando a vontade colectiva se afirma. Provou que a força de que não gosta destes enredos não está esquecida.

O teatro da rua é a política de novo socializada. E só esta força pode derrotar a austeridade, a memória selectiva do autoritarismo e o desejo de colocar os lucros acima das nossas vidas.

Sobre o/a autor(a)

Professor.
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