Don't be told what you want
Don't be told what you need
There's no future
No future
No future for you
Sex Pistols, God save the Queen
Quando, em 1977, os Sex Pistols lançaram o seu anti-hino, o futuro não parecia brilhante. A Guerra Fria ensombrava o mundo com a ameaça de holocausto nuclear, a longa onda de prosperidade do pós-guerra terminara tal como a onda revolucionária que assolou parte dos anos sessenta e setenta. Um grito de desânimo atravessou a geração de Sid Vicious e Johnny Rotten, arrastando-os nesse vácuo. Ao mesmo tempo, o esvaziamento dos movimentos de massas anticapitalistas na Europa, decantou no surgimento de grupos «radicais» que tentavam derrotar o sistema substituindo a ação de milhões de trabalhadores pela determinação vanguardista de um punhado de ativistas — as Brigadas Vermelhas, o grupo Baader Meinhof ou as FP25. Foi em vão. Mas tampouco a história findou: o futuro era duro, mas existia. A luta continua; ela é contínua.
Hoje estamos em piores lençóis. O futuro dos anos setenta pareceria risonho em comparação com o nosso.
Hoje, a crise económica é endémica, de longo prazo. A ameaça nuclear não cessou, antes escala a cada dia. Viemos de uma longa pandemia global. E acrescenta-se uma crise maior, mais ameaçadora para conjunto da humanidade e potenciadora das outras todas: a crise climática.
Embora já houvesse provas do aquecimento global causado pelas emissões resultantes da queima de combustíveis fósseis em 1977, quando os Sex Pistols declararam que não havia futuro para nós, a maioria das emissões aconteceu desde então. Na verdade, a maioria das emissões de gases de efeito de estufa ocorreu já depois da Cimeira do Rio de Janeiro, em 1992, supostamente destinada a travá-las.
O futuro de 1977 e de 1992 é hoje. Estamos no limiar da barreira consensualizada como o limiar gerível do aquecimento atmosférico: os 1,5°C acima da temperatura média pré-industrial. Os fenómenos climáticos extremos — secas severas, incêndios descontrolados, tempestades calamitosas, — acontecem ininterruptamente por todo o globo. Não nos últimos anos, mas mesmo nos últimos meses e semanas.
Ter a consciência do perigo e da enorme luta que temos de travar, que estamos a travar, não obriga ao desespero: pelo contrário, exige a esperança
O custo em vidas humanas é enorme; tal como o é na (ausência de) felicidade e no bem-estar de quem, mais longe ou mais perto das catástrofes, continua a viver e trabalhar. Há números com muitos zeros para demonstrar as vidas já ceifadas. Mas a «pornografia» da morte e do caos, a emulsão dos números das vítimas que faz delas estatística, não humaniza, não respeita, nem mobiliza. Ter a consciência do perigo e da enorme luta que temos de travar, que estamos a travar, não obriga ao desespero: pelo contrário, exige a esperança.
Mesmo Andreas Malm, um dos principais inspiradores das táticas radicais do movimento climático alertou contra o «niilismo instrumentalista» que «pega em qualquer coisa desde que seja suficientemente escandaloso»1.
Alargar o possível, ganhar a corrida contra o tempo
Contudo, há que assumir: o otimismo da vontade está a perder para o pessimismo da razão.
Não é fácil construir uma perspetiva de luta a médio prazo num combate que se faz contra o tempo — em que aliás, muitas das barreiras do que é sustentável já foram ultrapassadas. Contudo, esse é o desafio central, o principal do movimento climático e, por consequência, da esquerda anticapitalista: construir uma perspetiva estratégica, de médio-longo prazo, e lutar para vencer por uma transição justa que coloque os povos no centro de uma superação do capitalismo fóssil.
Fácil não é, mas tampouco há atalhos. Podemos mudar o futuro.
Precisamos de um projeto, de um programa, de um horizonte de esperança para construir uma mobilização em larga escala por uma transformação revolucionária, social e ecológica, que trave os combustíveis fósseis, que distribua a riqueza, que elimine as guerras sem fim e a ordem imperialista, que garante igualdade de direitos e justiça social e climática.
Esse combate leva tempo. Exige que mobilizemos de milhões, não pelo ultimato, mas pela apresentação de perspetivas, pela disputa política diária, em todos os terrenos, pela organização de base
Esse combate leva tempo. Exige que mobilizemos de milhões, não pelo ultimato, mas pela apresentação de perspetivas, pela disputa política diária, em todos os terrenos, pela organização de base.
A boa notícia é que já está a acontecer: quando no Sudoeste Alentejano nos mobilizamos por justiça social e ecológica; quando, na Líbia o povo saiu à rua para denunciar os responsáveis pela catástrofe; quando nos Países Baixos, milhares resistem à polícia para travar os subsídios aos combustíveis fósseis; quando nos Equador o povo vota contra a exploração de petróleo na Amazónia; quando, no Brasil, os povos indígenas podem derrotar o marco temporal. Em todo o mundo, a luta avança — muitas vezes com vitórias. Quanto tudo isto sucede, não temos o direito de fazer do desespero bandeira.
A crise climática obriga-nos a ordenar todos estes combates sob um novo eixo, o de uma transição social e ecológica que elimine o capital fóssil, garanta a adaptação às alterações climáticas e a proteção dos povos contra as suas consequências inevitáveis, assentando em igualdade e democracia.
Há que inspirar: traduzir a ambição revolucionária na linguagem do povo trabalhador. Ouvir e não apenas falar. Devemos colocar no centro da disputa política um conjunto de reformas suficientemente eficazes e compreensíveis, que coloquem a vida antes do lucro, o planeta antes do capital, e que melhorem agora a vida de quem trabalha. Transportes públicos, abrangentes, sem combustíveis fósseis e acessíveis; energia renovável barata para toda a gente; habitação digna no centro das cidades, quente no inverno e fresca no verão; gestão dos recursos hídricos priorizando as pessoas e agricultura de proximidade; empregos para o clima para quem trabalha nas industrias fósseis.
Devemos colocar no centro da disputa política um conjunto de reformas suficientemente eficazes e compreensíveis, que coloquem a vida antes do lucro, o planeta antes do capital, e que melhorem agora a vida de quem trabalha
A crise climática acelera os tempos deste combate. Ontem já era tarde. Mas se a ecoansiedade é compreensível, ela não pode ser uma política. O desespero deve dar lugar à esperança, o catastrofismo à mobilização de massas.
O tempo em política — o tempo da história da humanidade — não elude o tempo da física, não pode negociar com o clima. Mas corre numa outra dimensão: a das conquistas, dos direitos, da emancipação das maiorias sociais. Podemos ganhar tempo, esticar a fronteira do possível, afastar o abismo iminente. Nas palavras de Maiakoviski, «arrancar alegria ao futuro».
Já sabemos, da forma mais trágica, que o mesmo fenómeno climático extremo — uma seca, um incêndio, uma tempestade — afeta de forma totalmente diferente uma sociedade com direitos sociais, infraestruturas resilientes e democracia do que uma outra, espoliada e desigual, em que nada disso existe. Ganhamos tempo, também, ao conquistar direitos: habitação, salário, saúde. E tudo isso casa com a luta contra os combustíveis fósseis. É mais provável viver uma vida justa numa sociedade com justiça social, mesmo sob uma atmosfera sobreaquecida, do que no capitalismo atual mesmo que não houvesse aquecimento global.
Podemos ganhar tempo, esticar a fronteira do possível, afastar o abismo iminente. Nas palavras de Maiakoviski, «arrancar alegria ao futuro»
Nada disto não significa que não corremos contra o tempo; não diminui a gravidade da situação presente nem a ameaça sobre o nosso futuro — há um limite de aquecimento atmosférico a partir do qual toda a adaptação é impossível, mesmo numa sociedade socialista.
Significa apenas que a luta é longa, que já começou há muito e vai durar ainda bastante. Ela é climática e social, ecológica e de classe. E continua.
O futuro para as novas gerações existe e com ele a possibilidade de uma sociedade mais livre e justa. A nossa luta pode esticar o tempo, com os olhos postos na vitória. Podemos lutar para vencer.
Nota:
1 O autor sueco faz esta crítica em reação às ações de ativistas climáticos sobre obras de arte famosas, nomeadamente quadros de Van Gogh. Diz ele sobre essas ações: «Tenho muitas dúvidas sobre se esta é uma boa tática, uma boa visão do que são táticas. Há algo de pouco sério na ideia de que se pode fazer qualquer coisa se isso chamar a atenção dos média. Poderia imaginar-se, não sei, organizar uma grande orgia em Trafalgar Square. Isso iria atrair os média, mas não tem qualquer relação orgânica com a questão.» (Todas as traduções são minhas.) Ler entrevista completa aqui: https://www.exberliner.com/politics/andreas-malm-sabotage-has-to-be-precise-how-to-blow-up-a-pipeline-nord-stream-2-interview/