Cravo Jasmim

porCarlos Carujo

23 de janeiro 2011 - 11:00
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A ditadura tunisina subsistiu apoiando-se nos pilares dos apoios políticos internacionais, da sua relação privilegiada com o ex-colonizador e da sua subserviência interesseira ao FMI.

Começou por ser a história do desespero pessoal de um jovem licenciado, Mohamed El-Bouazizi, que se tornou vendedor de frutas e legumes por via da necessidade e que se imolou pelo fogo depois das autoridades lhe terem confiscado o ganha-pão e o futuro. Passou a ser a história da revolta de uma juventude farta de não ter futuro, farta do desemprego, da subida de custo dos bens essenciais, dos problemas de habitação etc. É agora a história da revolução de todo um povo que deixou de aceitar que lhe confiscassem o presente e o futuro. Um povo a viver todas as contradições de uma revolução-flor: a “revolução Jasmim” que floresce na alegria “caótica” da libertação da tirania e que resiste até aos respeitáveis arremedos de governos de “unidade nacional”, ou seja, da continuidade possível dos mesmos interesses.

Do jasmim ausente num país que foi de cravos

Por cá, quase nem se dava conta da Tunísia. Obcecados que estamos com os nossos eurodramas, nem sequer reparamos por configuração que somos vizinhos “de cima” de um mundo diferente. E se nos damos ao luxo de ignorar a luta do povo sarauí, claro que a “estável” Tunísia não tinha antes lugar no reduzido mapa-mundo político português. Era um país condenado a aparecer impresso apenas enquanto destino turístico ou aquando das declarações de circunstância de algum responsável político: enquanto destino excêntrico da diplomacia económica de Sócrates ou quando Cavaco Silva, fazendo uso de uma hipócrita razão de Estado, decidisse felicitar o ditador Ben Ali pela sua “expressiva reeleição” (pudera…), aproveitando ainda, claro, para lhe endereçar “a mais elevada consideração” (?). Por estes dias, o povo tunisino impôs outro retrato do país em que vivia: uma ditadura onde grassa a pobreza, as desigualdades sociais e o nepotismo.

Rosa Jasmim

Os apoios do regime eram de facto poderosos. A ditadura tunisina subsistiu apoiando-se nos pilares dos apoios políticos internacionais, da sua relação privilegiada com o ex-colonizador que fechava os olhos à repressão em nome dos negócios e da sua subserviência interesseira relativamente ao FMI.

Strauss-Kahn, dirigente do FMI, validava a ditadura em 2008 dizendo dela que era “o melhor modelo para muitos países emergentes” e o relatório do Banco Mundial tecia rasgados elogios ao modelo económico tunisino que eram na verdade auto-elogios à política ditada pelas instituições de Bretton Woods. Importar-lhes-ia que o bom aluno tivesse as mãos manchadas de sangue?

Esse modelo que o “bom aluno” tunisino seguia era a receita do costume: privatizações, desvalorização forçada da moeda e o fim dos preços fixos nos bens básicos. As privatizações que se traduziam por um clientelismo e nepotismo (a radiografia desse pequeno mundo de interesses surge aqui bem retratada) e a pujança económica que significa a miséria que levou à revolta. A revolução de jasmim foi também feita contra as políticas desastrosas do FMI.

Para além deste apoio de peso, o partido do presidente Ben Ali sentia-se protegido pelos seus amigos políticos. O seu partido, o Rassemblement Constitutionnel Démocratique, era um membro da família política em que se insere o PS português, a Internacional Socialista, que assim emprestava o seu nome solidariamente a uma ditadura. E foi só depois da revolução tunisina que a internacional da rosa decidiu de forma oportunista expulsar este partido das suas fileiras…

Para os adeptos da rosa, é triste que o jasmim se tenha imposto assim contra uma rosa tunisina manchada de sangue e de fome.

FMI, governo francês e Partidos Socialistas branquearam a ditadura até poderem. Mas o jasmim trocou-lhes as voltas e encravou a engrenagem da política e business as usual. Mais, a sua fragilidade aparente ameaça ser contagiosa e os poderosos do norte de África temem pelos seus interesses.

Entretanto, alguém fez o que se deve fazer numa revolução-flor para nos lembrar que as revoluções não são só flores: arrancou o nome do ditador do aeroporto e colocou lá o nome de Bouazizi. Até quando ficará lá?

Carlos Carujo
Sobre o/a autor(a)

Carlos Carujo

Professor.
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