Nuno Crato regressou ontem ao espaço público com uma entrevista num jornal diário em que aparece como um benemérito da educação, responsável por administrar uma pequena parte da fortuna da família Soares dos Santos para projetos educativos. Confrontado com as opções do seu mandato, o ex-ministro não comentou nada. Que balanço faz, por exemplo, desse ex-líbris da naturalização e promoção das desigualdades sociais pela dualização do sistema educativo que foi a distinção precoce de vias para os alunos do ensino básico? O que tem a dizer sobre essa medida, entretanto revertida por ser uma forma de segregação das crianças e de estratificação interna da escolaridade? Ou sobre a reestruturação curricular que promoveu para expurgar da escola tudo o que pudesse ter a ver com cidadania, expressão artística, desenvolvimento integral? “Deixemos a política de lado”, diz o novo Crato, que um dia chegou a sugerir “implodir o Ministério da Educação” como um modo irreverente de defender a liberalização do ensino e o primado do mercado e que agora – dir-se-ia... - deixou a política para se dedicar à filantropia e à intervenção educativa financiada pelos privados.
Mas para quem está atento, Crato tem andado por aí (justiça lhe seja feita!). A última vez que soube da sua atividade foi, por um acaso, no Brasil, através da televisão de lá. Há dois meses, Crato era a estrela que o Governo Bolsonaro apresentava para dar força científica e política ao “programa de alfabetização” que estava a lançar. Crato apresentou-se ao lado de Abraham Weintraub, o executivo do mercado financeiro que Bolsonaro nomeou para seu secretário na Casa Civil e depois para Ministro da Educação. Foi com Weintraub - cujo mandato se iniciou com um corte de 30% nos recursos das universidades federais, onde reinaria a “balbúrdia” e, claro, o “marxismo cultural” - que Crato apresentou a Cartilha do governo Bolsonaro sobre Política Nacional de Alfabetização (PNA). Uma cartilha que, entre outras coisas, foi entendida como uma tentativa de impor, com o argumento da “ciência”, um método uniforme de alfabetização para acabar com o “crime” e o “dogma da alfabetização” (palavras de Weintraub) que grassaria nas escolas brasileiras.
Porquê, ainda, a envelhecida e estafada guerra dos métodos de alfabetização? Por razões políticas, claro: o método fonético seria a arma para afastar de vez a presença “criminosa” do método global e a influência de Paulo Freire (esse perigoso subversivo que, na opinião do Ministro, continua “assustando a criançada”) na Educação do Brasil. Nas obsessões Bolsonaristas, há fantasmas omnipresentes. Paulo Freire é um deles - e a fixação é levada a um ridículo que se exibe na tonta investida contra o seu método de alfabetização ou na resposta do Ministro brasileiro que, interpelado por um jornalista sobre a diabolização que faz de um “pedagogo mundialmente reconhecido e com 29 doutoramentos honoris causa”, responde assim: “E daí que ele recebeu o título de Doutor honoris causa (de Harvard)? O Lula também recebeu e tá preso, tá na cadeia, tá enjaulado”.
Já Crato, o impoluto, lá abrilhantou a cerimónia do seu amigo Weintraub, elencando os supostos sucessos do tempo em que era ministro nos saudosos dias da troika e as medidas que inspiram agora o governo extremista de além-mar. Crato está de volta ao nosso burgo e ensaia o seu novo fato de filantropo. É um homem que, como se vê, deixou a política de lado.
Artigo publicado em expresso.pt a 25 de outubro de 2019