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Covid-19: duas medidas para proteger os mais vulneráveis

Foi possível contrariar a dinâmica de crescimento exponencial do vírus e concretizar o tal aplanamento da curva, mas a epidemia ainda não entrou em regressão. É preciso proteger os mais vulneráveis ao novo coronavírus. Como?

No dia 14 de abril Portugal registava 17.448 casos confirmados de Covid-19, mais 3% do que no dia anterior. É o quinto dia consecutivo com crescimentos abaixo dos 5% e o próprio Ministério da Saúde diz que estamos, neste momento, num planalto no que toca à epidemia. Ou seja, foi possível contrariar a dinâmica de crescimento exponencial do vírus e concretizar o tal aplanamento da curva.

Está tudo feito? Não, está longe de estar tudo feito. A epidemia ainda não entrou em regressão (apesar de crescimento cada vez mais reduzido continua a crescer), mas o ritmo é lento e a capacidade do SNS está preservada. A evolução do número de pessoas internadas e do número de pessoas em cuidados intensivos parece estável (depois de um salto de internados registado no dia 2 de abril, de 726 para 1042, a evolução tem sido lenta, registando-se um acréscimo de mais 185 casos em 12 dias), mas há dados para os quais vale a pena olhar com mais atenção.

Por exemplo, a percentagem de infetados com 60 ou mais anos tem vindo a aumentar e é aqui que se verifica a maior letalidade provocada pela Covid-19.

Remetendo novamente para os dados do dia 14 de abril, registavam-se 6.432 casos de Covid-19 com 60 ou mais anos, ou seja 37% do total de casos registados no país. Nas duas semanas anteriores essa percentagem tinha sido de 35% e há três semanas era de 31%. Já a taxa de letalidade está agora nos 3,2%, mas sobe significativamente com a idade: é de 8,4% a partir dos 60 anos, de 11,4% a partir dos 70 anos e de 14% a partir dos 80 anos.

É preciso proteger os mais vulneráveis ao novo coronavírus. Como?

Dever-se-ia assumir que as pessoas pertencentes a grupos de risco, seja em função da idade, seja em função da situação clínica, estariam dispensadas do exercício de atividade laboral sempre que a mesma não pudesse ser feita em teletrabalho. As deslocações e os contatos com outras pessoas seriam assim reduzidos. A pessoa manteria o pagamento a 100% por apoio equivalente a subsídio de doença e não poderia perder o seu vínculo laboral.

Dever-se-ia intervir mais nas estruturas residenciais para idosos, vulgo lares. Cerca de 33% dos óbitos registados são de pessoas que eram utentes deste tipo de instituições e esse facto tem de ser tido em conta. É necessário verificar, um a um, se colocaram em prática as normas e recomendações das autoridades de saúde, se existem utentes com sintomas e condições de isolamento e quarentena. É preciso testar e isolar os casos suspeitos para que a doença não se propague entre os que são mais vulneráveis à mesma.

Sobre a primeira proposta – a da dispensa de exercício laboral – o Bloco já a apresentou, mas acabou rejeitada com os votos contra do PS, PSD, CDS, IL e abstenção do Chega, sendo necessário continuar a insistir nela. Sobre a segunda – a intervenção nos lares – parece evidente que os ministérios responsáveis pelas áreas da saúde e da segurança social têm de mobilizar mais recursos para esta intervenção, de forma a garantir que todas as normas são cumpridas e que todos os casos suspeitos são testados e devidamente acompanhados do ponto de vista da saúde.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente e deputado do Bloco de Esquerda, membro da Comissão de Saúde da Assembleia da República. Psicólogo
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