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Cotrim, Xicão e Moedas no país dos sovietes

Cabe ao país decidir se tem realmente vontade de voltar a essa agenda ideológica de “libertação” que, à boleia da troika, tentou suprimir serviços públicos e direitos fundamentais. Porque essa apregoada “liberdade” tem custos. E bem altos!

A fazer fé em muitos comentadores da nossa praça, cuja pena oscila entre o Observador, o Novo Sol e até o Expresso, os leitores mais desatentos poderão pensar estar de volta aos tempos da guerra fria, e a viver a leste da cortina de ferro, algures entre Moscovo e Praga ou Budapeste.

Dos títulos incendiados, a verborreia foi passando para os discursos políticos e foi até motivo de forte polémica em cartazes eleitorais nas últimas autárquicas, nomeadamente no Seixal. O objetivo é claro e une todo o espectro político da direita em Portugal, mais polarizado do que nunca, à boleia dos animadores resultados eleitorais do discurso fácil do populismo.

Frases como “derrotar o socialismo”, retirar a “extrema-esquerda do poder” ou até “acabar com o comunismo” passaram a ser lugares-comuns na comunicação falada e escrita, seja nos meios de comunicação “mainstream”, seja nas plataformas digitais mais radicais, tudo devidamente ampliado nas redes sociais. Uma estratégia já vista noutras geografias, dos EUA de Trump ao Brasil de Bolsonaro, à Hungria de Orban e à Itália de Salvini.

A lição foi estudada, a estratégia montada e o planeamento definido. Bastava acender o rastilho e… esperar. Até aqui nada de novo. O que é realmente novidade é a adesão da direta tradicional “social-democrata” a este estratagema. Se a Cotrim Figueiredo ou a Ventura não será, de todo, estranho ouvir este argumentário, já ao PSD e ao CDS a coisa muda de figura. Mas, ei-los, de garras afiadas, empunhando as suas lanças aos microfones das TVs, vociferando contra os seus moinhos de vento que sopram de uma qualquer praça vermelha perdida no tempo.

Moedas seguiu o mesmo caminho e viu-lhe a capital cair no colo sem saber muito bem como. A julgar pelas últimas semanas e à boleia de um resultado eleitoral que não foi a hecatombe que muitos previam, a estratégia veio para ficar. Até porque, daqui por um ou dois meses, já ninguém terá memória de um Moedas indignado com a falta de habitação a preços acessíveis em Lisboa ou a exigir transportes públicos gratuitos para os poucos residentes que ainda conseguem resistir na capital.

Só que enquanto a opinião pública se desgasta em debates estéreis sobre se estamos a transformar-nos na Venezuela ou aguardamos pela chegada dos khmer vermelhos, a verdade é que o PS no poder vai provando que o socialismo há muito que ficou lá bem no fundo da gaveta.

Basta ver o estado a que chegaram muitos hospitais do SNS, com destaque para o de Setúbal, cuja falta de condições levou à debandada geral do corpo médico. Ou os tímidos ensaios de cosmética para alterar a legislação laboral. Ou ainda o tão propalado desdobramento dos escalões do IRS, mais um rato que a montanha de Costa propõe parir sem nivelar a justiça fiscal ao patamar que o país precisa. E nem o golpe de teatro do raspanete à Galp na reta final da campanha eleitoral autárquica pode servir de peneira a um sol há muito tapado pelo executivo.

Não é por isso de estranhar a queda continuada de candidatos a seguir a carreira de professor ou os constantes concursos na administração pública local que teimam em ficar vazios. Há uma gritante falta de investimento no serviço público, à boleia da ladainha já gasta das gorduras do Estado.

Haverá quem queira seguir uma carreira onde, independentemente do seu mérito, não vê a sua condição financeira melhorar? E ainda esteja permanentemente sob o escrutínio de todos? E seja enxovalhado amiúde por metade do espectro político, essa mesma metade hipócrita que, quando convém, rasga as vestes a exigir mais médicos, mais polícias, mais professores, mais funcionários nas escolas?

Corremos o risco bem real de, num futuro muito próximo, não haver quem queira concorrer a carreiras na função pública, estanques, mal pagas, condicionadas, constantemente criticadas. Alguém no seu perfeito juízo pode pensar que um professor que viva em Bragança vá dar aulas para o Algarve sem um subsídio de deslocação, como têm, por exemplo, os deputados, tendo de sustentar duas casas ao preço a que a especulação imobiliária colocou as rendas?

O mesmo se aplica aos enfermeiros, aos médicos, aos polícias e a muitas outras carreiras de serviço público. É preciso perceber que quando são aplicadas expressões como “gorduras do Estado”, estamos a falar destes profissionais, que são precisos e que merecem ser reconhecidos como todos os outros.

A estratégia de colocar funcionários públicos contra privados e tão antiga como a que coloca pobres contra miseráveis. E quase tão eficaz. É tão falaciosa como apregoar aos sete ventos que há cada vez menos democracia ou insinuar a criação de uma qualquer réplica de um KGB.

Ao contrário do que Cotrim, Xicão e Moedas apregoam estamos bem longe e cada vez mais distantes de qualquer ensaio minimamente relacionado com socialismo. Talvez fizesse bem ao triunvirato alguma literatura básica ou um “upgrade” em história contemporânea. Ou talvez seja, não parte, mas o centro da estratégia de uma direita que aguarda ansiosamente pela subida nas sondagens para uma fusão política que permita chegar ao poder.

E com ela, trazer de novo a agenda perdida do passismo, das privatizações ruinosas de que já ninguém parece lembrar-se à redução drástica dos apoios sociais, ao desinvestimento na Escola Pública e no SNS, privilegiando os grandes negócios privados e mandando às calendas os direitos universais à Saúde, à Educação e à Segurança Social.

Cabe ao país decidir se tem realmente vontade de voltar a essa agenda ideológica de “libertação” que, à boleia da troika, tentou suprimir serviços públicos e direitos fundamentais - constitucionalmente garantidos – privilegiando os colégios, os hospitais privados, as PPP, os bancos, as plataformas digitais e apostando na precariedade - “flexibilização” do mercado de trabalho -, nos baixos vencimentos e na isenção fiscal dos mais abastados como modelo económico para atrair investimento. Porque essa apregoada “liberdade” tem custos. E bem altos!

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Jornalista
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