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Costa e um país que não é para jovens

António Costa promete ficar na História como o primeiro-ministro que perdeu a oportunidade de melhorar efetivamente a vida das novas gerações.

Ser jovem não é pera doce no país que António Costa idealizou e parece querer deixar antes de rumar de malas e bagagens para Bruxelas. As dificuldades começam cedo, porque, apesar da propaganda, continua a pagar-se mais por uma creche do que por uma universidade. O paradigma assistencialista de que o PS tanto gosta deixa a classe média aprisionada entre o desinvestimento nos serviços públicos e a falta de universalidade das medidas essenciais.

Salvam-se os passes sociais e os manuais escolares gratuitos, curiosamente duas medidas forçadas pelos partidos de esquerda a que muitos gostam de chamar radicais, mas que foram um alívio financeiro importante na vida de milhares de famílias.

Sobrevivendo ao preço absurdo das creches, o desafio passa a ser a Escola Púbica, onde faltam professores e funcionários, onde há ainda 30 mil alunos sem aulas a caminho do natal e estabelecimentos escolares que têm de fechar porque não resistem às primeiras chuvadas.

A geração “casinha dos pais”

Mas, as crianças têm de ir ao médico e aí as coisas também não estão fáceis. Com mais de 25 mil pessoas sem médico de família, com centros de saúde onde há filas de espera que começam 12 horas antes das consultas, resta a muitos – os que podem - o recurso ao privado.

Do secundário para o ensino superior, os desafios são outros. Além das propinas, que Costa recusou eliminar, há jovens universitários a pagar quase um ordenado mínimo por uma cama nas grandes cidades, onde está a maioria dos cursos. A estas despesas acresce o facto de muitos só terem empregabilidade após a conclusão do mestrado, um maná para a elite universitária do burgo, onde cada aluno pode ter de despender 4 ou 5 mil euros para concluir os estudos.

Sobrevivendo a tudo isto, é altura da entrada no mercado de trabalho. Por entre anos de estágios, períodos experimentais, outsourcing ou empresas de trabalho temporário, a precariedade é o desígnio da maioria. A geração “casinha dos pais”, destinada a viver em modo família alargada, sem horizontes, sem projetos, sem filhos, sem futuro. E isto se houver “casinha dos pais”.

Um quarto com vista para o Manneken Pis

É este o país que Costa deixa às novas gerações. Não foram mandados emigrar, mas muitos não tiveram outra opção. E não voltarão tão cedo. O projeto de Costa e do PS para o país é “mais do mesmo”, polido aqui ou ali com muita propaganda à mistura, como o aumento de 10 euros para as pensões ou a atualização de 0,9% para a função pública, ambas amplificadas até à exaustão por uma comunicação social que se demitiu de pensar.

Ser jovem em Portugal ainda depende do berço. Costa não quer agitar as águas nem alterar o “status quo”. Não quer afrontar os patrões – o episódio do caricato pedido de desculpas é de meter dó - eliminando as medidas da troika. Não quer afugentar os fundos imobiliários que fazem fortuna com a especulação. Não quer fazer frente aos grandes grupos de saúde, que aumentam os lucros com os doentes que o SNS alegadamente não consegue atender.

Costa é um animal político, mas não quer mudar um sistema que conhece como a palma da mão. Convive bem com o problema das rendas, com a falta de investimento no SNS, com os problemas da Escola Pública ou com a deterioração das carreiras na função pública. Costa não perde o sono com o preço das creches nem o apetite com o valor dos mestrados. Mas promete ficar na História como o primeiro-ministro que perdeu a oportunidade de melhorar efetivamente a vida das novas gerações.

Num contexto político favorável onde a esquerda continua maioritária, com acesso aos milhões do PRR e uma crise social em curso, esperava-se de Costa vontade, audácia e coragem para mudar. E deixar uma herança que pudesse dar frutos nos anos vindouros. Costa poderia ser um ícone para as novas gerações, mas o que Costa parece querer na realidade é uma reforma dourada, sopas, descanso e um quarto com vista para o Manneken Pis.

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