Os últimos dias têm revelado imagens de guerra que acreditámos impensáveis na Europa. A guerra na península balcânica deveria ter servido para nos pôr de sobreaviso, mas não aprendemos. Ficamos chocados com a destruição, ficamos comovidos com tanta mulher e criança a procurar refúgio. A Europa mobiliza-se, resta perguntar porque não se mobiliza de idêntica forma com os refugiados que procuram as costas da Europa para fugir da guerra, da opressão, da exploração e da fome. Porquê? Não sofrem todos os refugiados o mesmo desespero?
Ursula von der Leyen proclamou que os ucranianos “são um de nós, lutaremos por eles”. Claro que são um de nós segundo o velhíssimo conceito de que a Europa se prolonga do Atlântico aos Urais, uma concepção geográfica que, de tão gigantesca, nos intimida e nos torna vulneráveis. A expressão da Presidente da Comissão Europeia não terá sido muito feliz porque antes de “serem um de nós, da família” são pessoas, seres humanos e, nesta medida, não são apenas os ucranianos a serem fustigados. Todos os outros seres humanos que vivem e trabalham na Ucrânia também têm de ser protegidos, também merecem a nossa luta. Que isto seja explicado claramente. A senhora Presidente devia ter acautelado o entusiasmo.
A Leste temos a Rússia e o seu Presidente, mais insano do que aparenta, que tem deixado claro que a Ucrânia não tem razão de existir, constitui parte integrante da Mãe Rússia, a ela deve voltar. O exército foi accionado, a fronteira Oeste definida como mira enquanto a Oeste se foge e se prepara a defensiva. As fronteiras da Ucrânia não estancam a vaga; os países limítrofes, calejados por sucessivas guerras, ficam em estado de alerta, não é coisa para menos. Mobilizam-se com grande empenho.
Não houve nada de semelhante com os refugiados que chegam do Médio Oriente quando esses mesmos países limítrofes se manifestaram reticentes. O factor surpresa não pode ser usado. Neste momento o que determina efectivamente a mobilização é o conceito de “família” levando desconhecidos e também familiares a percorrerem centenas e milhares de quilómetros a caminho das linhas de separação para ajudarem desconhecidos ou socorrerem familiares.
Estes familiares e desconhecidos não atravessam as fronteiras a seu bel-prazer, as filas de automóveis deixam claro as dificuldades que se colocam, a delonga é uma certeza, os mísseis do invasor também. Quem chega à fronteira com a União Europeia é sujeito a um escrutínio por nacionalidade, cor e origem étnica e geográfica sendo que a fiscalização nas fronteiras se tem revelado muito zelosa. Não sem razão a União Africana já se manifestou contra a desigualdade de tratamento. Sem problema, passam os ucranianos, eslavos e brancos, as pessoas com outra cor de pele têm maior dificuldade em entrar na União Europeia. Aconteceu por acaso? Um excesso de zelo de algum funcionário resiliente? Sem explicação nem desculpa, não será demais exigir a vigilância de Bruxelas para que este procedimento não se repita, para que não se crie esta nova cortina. Devem passar todos que fogem à guerra, independentemente da cor e da origem e, então sim, “serão um de nós”. A Europa é muito mais do que fundos comunitários ou capacidade financeira. Se Bruxelas não deu por este zelo excessivo com laivos anti-democráticos, a mobilização terá de chamar a atenção de Ursula von der Leyen.