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Correr atrás do clima

A discussão acerca das alterações climáticas é, paradoxalmente, transversal e invisível. Em muitos casos está ausente: reconhece-se a importância das mesmas e elabora-se abstratamente uma teoria e uma práxis de reconhecimento sem resposta.

Não existe socialismo no abstrato. Não existe comunismo no vácuo. Não existe social-democracia teórica. Não existe o capitalismo dos artigos, dos livros e das séries de Milton Friedman. O constrangimento material define a política e molda as medidas tomadas. Quando maior for esse constrangimento, maior será a sua preponderância sobre políticas e medidas. A escassez ou a abundância de matérias primas determina a capacidade de distribuição, de redistribuição, de concentração e de expropriação da riqueza, dos bens comuns, dos serviços essenciais, dos direitos conquistados. A sustentação de habitações, de territórios e ecossistemas depende diretamente da estabilidade dos mesmos: da ausência de cheias, de secas, de fenómenos climáticos extremos, precipitação concentrada e tempestades energéticas ou colheitas falhadas. Não é possível camuflar que vivemos num ponto de inflexão: a escassez crónica de matérias primas, de territórios, de alimentos, determinada pelas alterações climáticas já está sobre nós, e determinará crescentemente a política e a luta social.

A discussão acerca das alterações climáticas é, paradoxalmente, transversal e invisível. Em muitos casos está ausente: reconhece-se a importância das mesmas e elabora-se abstratamente uma teoria e uma práxis de reconhecimento sem resposta. É esta a prática atualmente em vigor na maioria das forças políticas e movimentos sociais, e no Bloco também. Se por um lado a ignorância acerca do tema alimenta a pouca atenção dada, há fatores objetivos para, mesmo com pleno conhecimento, este tema ficar na prateleira:

- Apesar do avanço do conhecimento científico, a rejeição e a recriminação caracterizam a resposta. A assunção de que o crescimento crescente dos perigos gerará uma resposta racional não é verificada – aliás, pouco mais do que ser diretamente afetado mobiliza respostas coletivas;

- Sob a hegemonia capitalista, a rejeição de limitações ou restrições materiais domina. A desregulamentação material é vista como uma base para a prosperidade económica e o crescimento: o progresso linear;

- A defesa inconsciente de que o clima está num estado estável ou de que as consequências serão longínquas e futuras, contrariando a realidade científica, transforma-se numa espécie de “gestão do terror” que afeta decisões e impede respostas racionais e concretas;

- A gigantesca dimensão da tarefa, transversal à sociedade, à economia e ecossistemas, roça a fronteira da noção de que a Humanidade só se propõe tarefas que pode resolver.

Traduzindo noutra linguagem: apesar da relação entre o ser humano e a “natureza” não ser dialética, podemos e devemos interpretá-la. Os feedbacks da biosfera e da atmosfera são a antítese da economia globalizada de carbono. Se se mantiver na sua trajetória ascendente, cada vez mais carbonizada, a síntese deste argumento não será o cumprimento de um futuro humano, será o seu ocaso. Um realinhamento com a História Natural não pode ser desprezado: o Homo sapiens dependeu e mantém-se dependente de um clima e de uma biosfera benigna para ter florescido como fez até hoje, e a sua História é, além da história da luta de classes, também a história da Terra.

O capitalismo beneficia-se da separação clara das ciências e do conhecimento, nomeadamente do isolamento do pensamento económico, que impede uma natureza holística e integrada para a análise da realidade. Perde a análise e perde a resposta.

A emergência de uma narrativa das alterações climáticas tende hoje a poder ser mais rapidamente acelerada por fenómenos catastróficos em países ricos onde as vítimas sejam pessoas brancas, do que por movimentos de base. Isso não significa no entanto que possa ser abandonada a preparação de narrativas emancipadoras, ambientalmente justas, democráticas e redistributivas. Significa ainda menos que possa ser abandonado o apoio a e a criação de movimentos de base cuja tarefa em mãos é comparável apenas ao movimento internacional dos trabalhadores nos séculos XIX e XX e que mudou a natureza dos Estados, das instituições e a relação de forças no mundo. Estes movimentos preparam e armam um futuro incerto com ferramentas civilizatórias no momento em que a própria civilização humana mais estará em perigo. Continuamos a correr atrás.

Sobre o/a autor(a)

Investigador em Alterações Climáticas. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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