Há um método recorrente na política quando esta se despe de soluções para o quotidiano: o refúgio no pânico moral. Quando o PSD, o CDS e o Chega se dão as mãos para agitar o fantasma da "ideologia de género" e propor a reversão de direitos fundamentais das pessoas trans, não estamos perante um debate sobre saúde pública ou proteção da infância. Estamos, sim, perante a montagem de uma cortina de fumo de dimensões gigantescas. É a velha e estafada tática de quem, perante o vazio de respostas para a crise da habitação ou o custo de vida, decide policiar os corpos e as identidades dos mais vulneráveis para que o país não olhe para onde a ferida realmente sangra.
Estas propostas, que surgem agora com uma roupagem de uma suposta prudência, são desprovidas de qualquer rigor técnico ou científico. Ignoram deliberadamente as diretrizes da Organização Mundial de Saúde e o percurso que Portugal tem feito, com orgulho, na vanguarda dos Direitos Humanos. O que se pretende é a re-patologização da existência. Querem empurrar de volta para a sombra e para o armário quem finalmente conquistou o direito a ter um nome e uma dignidade reconhecida pelo Estado. Mas desengane-se quem acredita que este é um episódio isolado sobre casas de banho, registos civis ou registos administrativos. Esta é, na verdade, a primeira linha de uma ofensiva reacionária muito mais vasta, que testa a resistência das nossas instituições democráticas.
É impossível não evocar aqui o aviso histórico que Martin Niemöller nos deixou, tantas vezes adaptado, mas nunca tão atual. Primeiro, vieram perseguem as pessoas trans e houve quem silenciasse, por achar que o direito e o respeito pela identidade alheia era um detalhe secundário. Depois, virão buscar as mulheres pobres e o seu direito inalienável a decidir sobre o próprio corpo. Seguir-se-ão os imigrantes, bodes expiatórios de uma suposta insegurança que a direita alimenta. O problema da indiferença é que ela é um cheque em branco para o autoritarismo: quando finalmente atacarem, ainda mais, os nossos direitos laborais, as nossas rendas e a nossa sobrevivência comum, poderemos descobrir, tarde demais, que já não resta ninguém para gritar connosco.
Esta ofensiva é o ruído necessário para abafar o estalo do chicote no novo pacote laboral. Enquanto o país se perde em discussões sobre o sexo dos anjos, a direita vai desmantelando o Serviço Nacional de Saúde pela calada e entregando a Escola Pública aos apetites do setor privado. É o espantalho perfeito para que não se discuta a incapacidade absoluta deste governo em travar a especulação imobiliária que continua a expulsar famílias inteiras dos centros das cidades. Querem-nos entretidos com parvoíces sem fundamento científico para que não vejamos a mão que nos tira o pão e a casa.
Há que denunciar esta inversão de prioridades. As propostas da direita e da extrema-direita são o estertor de quem tem medo de um mundo que caminha para a autodeterminação e para o respeito pela diversidade. São propostas de quem olha para o futuro com pavor e tenta, por via legislativa, ressuscitar um passado cinzento e bafiento do qual parecem ter uma profunda nostalgia.
A nossa luta não se divide em gavetas. A dignidade de uma pessoa trans é exatamente a mesma dignidade do trabalhador que, ao final do mês, vê o seu salário ser devorado por uma renda especulativa. São as duas faces da mesma moeda: a liberdade de ser quem se é e a liberdade de viver sem a corda da exploração ao pescoço. Contra o pânico moral que a direita tenta semear, a nossa resposta terá de ser a única que eles verdadeiramente temem: a solidariedade intransigente na defesa de todos, mas mesmo todos, os direitos humanos.