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A coragem que pode abrir caminhos para a paz

A guerra que a Rússia provocou na Ucrânia tem certamente um contexto, mas bombardear um país como está a ser feito é absolutamente imperdoável e não tem qualquer justificação legítima nem qualquer fator atenuante, por mais pretextos que se invoquem.

À medida que a guerra se intensifica e que a ocupação russa da Ucrânia prossegue, fica cada dia mais evidente o caráter criminoso e repugnante da agressão militar desencadeada pelo governo de Putin e de como ela configura uma abjeta violação do direito à autodeterminação dos povos. Sendo certo que este processo não começou hoje, que tem capítulos anteriores que não podem ser ignorados ou desvalorizados, relacionados com disputas geopolíticas e equilíbrios regionais, nada permite dar um outro nome a esta invasão imperialista. Putin repete, de resto, a receita que já utilizara na Tchetchénia e que levou à chacina de Grozni. A guerra que a Rússia provocou na Ucrânia tem certamente um contexto, mas bombardear um país como está a ser feito é absolutamente imperdoável e não tem qualquer justificação legítima nem qualquer fator atenuante, por mais pretextos que se invoquem.

Há um duplo dever de solidariedade que se impõe no imediato. Primeiro, solidariedade com quem é perseguido na Ucrânia e se vê obrigado a fugir, com os civis vítimas dos bombardeamentos a que não conseguiram escapar, com quem resiste no terreno à ocupação russa. Em segundo lugar, solidariedade com os bravos e bravas que, na Rússia, pagando o preço da repressão, da prisão e da violência estatal, se manifestam contra a guerra, vão para as ruas contra o infame governo de Putin ou ocupam os espaços de visibilidade para contestar a agressão militar, como têm feito os corajosos manifestantes em Moscovo ou como fez, na passada segunda-feira, uma funcionária da televisão estatal russa que interrompeu a emissão em direto com um cartaz anti-guerra.

Perante a brutalidade da guerra, há todavia algo mais que os países europeus podem fazer: não ficar à espera dos Estados Unidos ou da China e assumir desde já a responsabilidade de propor uma Conferência pela paz, disponibilizando-se em conjunto para mediarem essa iniciativa, sob a égide das Nações Unidas, para garantir a autodeterminação da Ucrânia e uma segurança duradoura na Europa. Uma tal iniciativa seria um sinal de autonomia e de intrepidez e uma alternativa à pretensa solução, que alguns reivindicam, de uma espiral guerreira por via de uma intervenção da NATO.

É certo que há quem, cavalgando o compreensível desespero com a destruição em curso, queira aproveitar o momento para promover a ideia de que a única resposta é mais guerra. A participação direta de atores terceiros no conflito seria contudo uma irresponsabilidade, uma escalada em direção ao confronto entre potências nucleares. Não é de mais lembrar: a expansão da Nato já provou no passado ser um fator de insegurança na Europa. Por mais que o momento apele a reações irrazoáveis, há que resistir a essas vertigens destrutivas. O aumento da despesa armamentista será defendido por muitos como escolha inevitável e os mais cínicos poderão até olhar para essa estratégia como uma oportunidade de relançamento económico a partir de investimentos massivos nas indústrias da guerra. Mas essa via não construirá qualquer solução de futuro - vai apenas forjar o caminho para uma guerra prolongada com consequências perigosas.

Este não pode ser o tempo dos ventríloquos da volúpia da guerra ou dos interesses do armamento, mesmo que isso nos seja apresentado como suposta prova de ousadia democrática. Como propuseram numa declaração comum vários porta-vozes da esquerda europeia, entre os quais o britânico Jeremy Corbin, o francês Jean-Luc Mélanchon, a ministra espanhola Ione Belarra e também Catarina Martins, este é o tempo, sim, de um movimento europeu pela paz. É o tempo de sanções implacáveis contra a oligarquia russa (mesmo que isso tenha custos para nós e assumindo as consequências que possa ter para a nossa economia), é o tempo do reforço da diplomacia ativa e é o tempo de uma convocatória para uma conferência da paz. Em momentos difíceis como o que vivemos, a força europeia que pode fazer diferença é a que passa por aqui. Sobretudo se ela tiver como sustento uma mobilização social que nos convoca a todos e que terá os seus pilares mais fortes na articulação entre cidadãos da Rússia em desobediência ao governo autocrático do país e uma opinião pública mundial nas ruas a exigir a ação imediata pela paz. Sim, é connosco.

Artigo publicado em expresso.pt a 15 de março de 2022

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, sociólogo.
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