Está aqui

Coração Conservador

Os Conservadores têm as melhores soluções para os problemas da pobreza, mas não falam ao coração. Este é o argumento de Arthur C. Brooks, no seu livro “O Coração Conservador".

Os Conservadores têm as melhores soluções para os problemas da pobreza, mas não falam ao coração e, portanto, não andam com muita popularidade. Este é o argumento de Arthur C. Brooks, presidente de um think tank neoconservador, apresentado no seu livro “O Coração Conservador. Como Construir uma América Mais Justa, Feliz e Próspera”1.

Nesta mesma linha, os programas sociais até podem parecer um remédio adequado pois tornam a pobreza menos dolorosa, mas não a tornam menos permanente pois alimentam a subsídio-dependência.

Assim sendo, defender uma redução nos apoios sociais não significa “não ter Coração” - até porque estudos citados por Brooks indicam que os Conservadores são grandes dadores. Apenas significa que o dinheiro deve ser canalizado para a “criação” de emprego. Por exemplo, uma das medidas inovadoras seria oferecer vouchers para que gente desempregada que viva em zonas com alto desemprego possa migrar para zonas a precisar de mão-de-obra. (Onde é que já ouvi ideias deste tipo?!?)

O argumento da subsídio-dependência não é novo e há muito que extravasou o campo conservador.

Uma das mais agressivas reformas da proteção social, visando a “conciliação entre responsabilidade pessoal e oportunidade laboral”, foi promovida por Bill Clinton.

Procurando combater a “subsídio-dependência”, o programa incluiu a redução e a restrição da proteção social, e a adoção de normas condicionando a manutenção dos apoios à prestação de trabalho. Em suma, as prestações sociais deixaram de ser encaradas como direitos, legalmente definidos, para estarem mais dependentes dos critérios a serem adotados pela identidade que concede o apoio.

O resultado foi a degradação das condições de vida das populações pobres, a sua estigmatização e a pressão sobre as condições laborais dos segmentos de trabalhadores (em boa verdade, na sua maior parte trabalhadoras) com salários mais baixos. Mesmo assim, como bem sabemos, este tipo de programas fez escola mundo fora.

A novidade do “Coração Conservador” está antes na preocupação em apresentar a mesma agenda, mas de forma inclusiva e otimista, menos insensível, apresentando a imagem de um conservadorismo que combate a pobreza – não as pessoas pobres -, promove a igualdade de oportunidades e exalta a iluminação espiritual.

Um conservadorismo que abre o coração e a mente e luta pelas pessoas que precisam de ajuda.

Aumentar salários, claro está, não convém. Os empregadores contratariam menos, argumenta Brooks.

A solução está em promover o crédito com vantagens fiscais para famílias de trabalhadores/as pobres. Ao contrário dos aumentos salariais generalizados, isso permitiria dirigir a resposta sobretudo para as famílias mais pobres e não desencorajaria as empresas. E, ao incentivar o trabalho, permitiria que um crescente número de pessoas pudesse desfrutar de um sucesso merecido – um dos grandes indicadores da felicidade.

No fundo, trata-se de uma questão de felicidade, só possível pelo sucesso merecido.

Rebuscado, não?

Hoje em dia, a ideologia neoconservadora não está a ter grande adesão nos EUA. Felizmente.

A apologia do crédito fácil já deu demasiada bronca e há bem pouco tempo – a bronca foi demasiado grande e é demasiado recente para ficar no esquecimento. Além disso, a perseguição a pobres tem hoje menos adesão e a ideologia da mobilidade individual está em baixa.

É que, nos últimos tempos, nos EUA, os ganhos conseguidos pelas classes trabalhadoras têm sido alcançados sobretudo através de ação coletiva – desde logo pelas importantes vitórias conseguidas ao nível do salário mínimo em vários Estados.

Mas, mesmo em recuo nos EUA, o neoconservadorismo ganhou uma ampla adesão por todo o mundo e, em particular, na Europa.

Interessa por isso percebê-lo e ver como as forças progressistas e os movimentos sociais, incluindo os laborais, norte-americanos foram ganhando terreno nesta difícil disputa.


1 No original “The Conservative Heart: How to Build a Fairer, Happier, and More Prosperous America”. Tradução minha.

Sobre o/a autor(a)

Investigadora bolseira e doutoranda em sociologia. Ativista para o que faz falta
(...)