A notícia da não recondução de Rita Rato como diretora do Museu do Aljube/Resistência e Liberdade, sob tutela da EGEAC, empresa municipal de Lisboa que gere os equipamentos e a animação cultural no município de Lisboa e é diretamente tutelada pelo presidente da câmara, Carlos Moedas, é o terceiro ataque à liberdade de expressão, ao pluralismo democrático e à preservação da memória da resistência à ditadura estadonovista por parte da governança da direita, seja no Governo, seja na CML.
Primeiro, foram os novos estatutos da agência Lusa – impostos contra os pareceres dos sindicatos, da Comissão de Trabalhadores e do Conselho de Redação –, que abrem as portas à instrumentação político-partidária e governamental no serviço público informativo. Seguiu-se a não recondução, por parte da EGEAC, de Francisco Frazão como diretor artístico do Teatro do Bairro Alto, na sequência de intervenções públicas soezes e ignaras por parte de uma criatura ligada à extrema-direita, pedindo que esse espaço fosse transformado em palco do conservadorismo ultramontano e fascizante. O terceiro passo foi contra o museu que, sob a orientação de Rita Rato, tem desenvolvido uma atividade inovadora e de excelência na preservação, estudo e divulgação da memória ligada à resistência contra a ditadura e da sua atualidade nos tempos que correm.
O afastamento de Rita Rato tem três marcas próprias do autoritarismo atrabiliário: apesar de ser acompanhado de elogios ao desempenho da diretora, não apresenta – recusa-se a apresentar – qualquer justificação para não se reconduzir uma responsável reconhecidamente competente em todos os meios pelo seu trabalho; a medida é tomada por decisão unilateral, sem consulta às entidades académicas e cívicas que integram o conselho consultivo do museu, cuja missão é pronunciar-se sobre os vários aspetos do seu funcionamento: colocar os interessados e participantes perante o gesto autocrático consumado; finalmente, e talvez o mais grave, é anunciada a nomeação de uma nova diretora sem concurso público – ao contrário do que aconteceu no provimento de Rita Rato como diretora – ao sabor de uma ignota discricionariedade (ideológica? partidária?) por parte da EGEAC e do presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), que a tutela no quadro de recente aliança da AD com a extrema-direita no município. Parece que começam a estar à vista os seus frutos.
Preservar, defender, semear a nossa História recente de resistência à ditadura, ao colonialismo, à Guerra Colonial, lembrar à luz do presente essa sombra negra e liberticida que parece servir de inspiração aos novos bufões do ultramontanismo, da guerra e da lei do mais forte, é um labor que não podemos deixar que se silencie
Vivemos uma época inquietante para a democracia, em que, como se não houvesse passado, se regride sob novas fórmulas, nacional e internacionalmente, à cavalgada sinistra de partidos e movimentos de índole neofascista para o poder. Urge perceber que eles só lá poderão chegar através dessa espécie de contrarrevolução cultural e ideológica, desse cancelamento autoritário de toda a alternativa democrática que lhes dificulte a marcha. Preservar, defender, semear a nossa História recente de resistência à ditadura, ao colonialismo, à Guerra Colonial, lembrar à luz do presente essa sombra negra e liberticida que parece servir de inspiração aos novos bufões do ultramontanismo, da guerra e da lei do mais forte, é um labor que não podemos deixar que se silencie. Saber se a cidadania democrática o conseguirá fazer é, talvez, o grande desafio da nossa idade.
Artigo publicado no jornal Público a 18 de março de 2026