Contra a “passificação” da esquerda

porFrancisco Louçã

05 de novembro 2025 - 13:08
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A “passificação” do PS tem portanto uma história, que começou com Seguro, e agora prossegue. Contudo, é um processo profundo, pois corresponde à “passificação” da política.

O arraial que vai por aí acerca da “sobrevivência” do Bloco tem a mesma função que os cartazes de Ventura sobre os ciganos, que é distrair com os meneios de uma mão, enquanto a outra se ocupa de funções mais venturosas. Venho por isso combater duas ideias falsas: a de que o problema das esquerdas é localizado e a que assegura que o país está condenado ao novo normal do bromance Montenegro-Ventura.

Aflição

Com 2% para o Bloco, 2,9% para o PCP e 4,1% para o Livre, com o PS a ser ultrapassado em deputados pelo Chega, as recentes eleições legislativas mostraram o estado de aflição das esquerdas e do centro. São hoje, todos juntos, menos de um terço dos votos, o que por sua vez significa menos de 20% do eleitorado. Nenhum destes partidos tem capacidade para recompor um espaço maioritário. Perderam as legislativas e perderam as autárquicas. E alguns não querem perceber, dado que o sectarismo, a característica mais tóxica da esquerda portuguesa, tem destas coisas, leva quem não se olha ao espelho a ignorar o mundo ou, pior, a fingir que as dificuldades estão na casa ao lado.

Do outro lado, a maioria de direita e extrema-direita consolidou-se, ganhou poder de revisão constitucional, pode mudar a composição do Tribunal Constitucional e de outros órgãos e reforçará os seus entendimentos de vento em popa. A sua combinação é uma aposta histórica, que quer formatar a opinião pública para acreditar que há uma guerra santa entre os portugueses de sangue puro e a horda de perigosos invasores que já estão na cidadela, na versão Passos Coelho-Ventura-Montenegro. O avanço desta cruzada constitui a maior transformação da política portuguesa desde o 25 de Abril: mudou o tema e mudaram os protagonistas.

Esta deslocação do regime político através da nova relação de forças resulta da confluência de duas crises. A primeira foi o colapso da maioria absoluta do PS (que governava há um ano e meio, lembra-se?), que provocou uma fractura na sociedade portuguesa e que tende a ser ofuscada pelo frenesim diário. O seu efeito foi abrir espaço à instalação da direita como o lugar da política, excluindo do campo do possível as referências a medidas de segurança no trabalho ou na habitação. A segunda crise, de que não nos devemos distrair, é provocada pela naturalização da desigualdade e pela glorificação de um liberalismo insaciável e despótico – a vida torna-se por isso um tormento para a maioria da população, precisamente a que é levada a acreditar que a culpa é da cor do imigrante. Essa dupla crise explica o facto espantoso de a afirmação cultural da nova relação de forças já não ter pejo em monumentalizar Trump, Netanyahu e Milei. Os bufões e criminosos são os heróis da vingança.

O poder da casta

Para lhe fazer frente, tem sido esgrimida a teoria dos três corpos, que conduz à recomendação de um compromisso: o centro (e a esquerda) deveriam oferecer apoio à direita para a resgatar da vizinhança movediça da extrema-direita. Está bem de ver que isso leva a um fracasso que cria vergonha alheia, reduzindo o PS a uma política-amiba que desiste de apresentar alternativas, como no apoio ao Orçamento, que é “mau” e “sem credibilidade”, pelo que siga a marinha. Nas presidenciais, esta estratégia é interpretada operaticamente por António José Seguro, o que nem é novidade: o actual candidato protagonizou há uma dúzia de anos a tentativa de um acordo de “salvação nacional” que levaria o PS a enfileirar no Governo Passos Coelho. Foi Mário Soares quem o impediu, ameaçando sair do PS se a tramóia se consumasse. Pode então alguém espantar-se com uma campanha presidencial cuja principal preocupação parece ser desmentir o valor dos valores de esquerda? Tal fuga tornou-se o refrão do candidato, o que revela a manobra eleitoral inédita, de modo que é a primeira vez que ouço o apelo enfático a um voto que se declara inútil. Aliás, o imbróglio adensa-se, pois, a crer na mais recente sondagem, esta teoria dos três corpos aconselharia o voto no almirante para lhe garantir a segunda volta e evitar Ventura. O mundo é redondo.

A “passificação” do PS tem portanto uma história, que começou com Seguro, e agora prossegue. Contudo, é um processo profundo, pois corresponde à “passificação” da política. O próprio ex-primeiro ministro deu o mote, lamentando que “as pessoas se sentem estrangeiras na sua própria terra”, o que levou Leitão Amaro a elevar a fasquia até uma conspiração de “reengenharia demográfica” para encher a pátria de imigrantes. Como foi notado neste jornal, que o deputado beijoqueiro vocifere a expulsão de uma deputada negra “para a sua terra” já é política mainstream. O bromance Montenegro-Ventura é a consagração dessa corrente.

O que venho afirmar aqui é que podemos vencer essa corrente, conhecendo os seus pontos fracos. A sua primeira fragilidade é a arrogância da casta. Note como magnatas montam candidaturas presidenciais, como empresários das armas ou de contratos públicos despejam dinheiros no Chega, ou como financiam o Observador-Iniciativa Liberal. De facto, como em todas as viragens autoritárias da classe dominante no passado, há nisto uma avidez ilimitada. Formada pelo Estado e alimentada pelo Estado, a casta foi acumulando a sua riqueza suportada pelo saque dos impostos, a ameaça da espada e a ideologia colonial. É a isso que regressa agora, com as leis que protegem a acumulação imobiliária e os descontos fiscais para os cofres das maiores empresas, e é também por isso que o racismo contra os colonizados de dentro lhe é tão natural. Estão a repetir a linguagem do berço.

Daí a sua segunda e principal fragilidade: esta política da “passificação” não responde a nada. Para o povo, significa unicamente que a vida nas nossas cidades se vai tornando uma tortura, que as pensões e os salários são pilhados pelas rendas e que o supermercado se torna exorbitante. Estamos a ser expulsos da nossa terra pela casta. É na revolta contra essa vida insuportável que está a força para constituir uma nova maioria, uma nova resposta da esquerda e um novo projecto para Portugal. A palavra é viver. A casta proíbe a esperança de uma vida normal à gente que trabalha e quer respirar. É preciso vencê-la para viver.

Artigo publicado no jornal “Público” a 03 de novembro de 2025

Francisco Louçã
Sobre o/a autor(a)

Francisco Louçã

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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