Está aqui

Consequências dramáticas no Iraque?

O Secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, prevê "consequências dramáticas" se, em 1 de Janeiro de 2009, não houver acordo entre os Estados Unidos e o Iraque sobre os direitos das tropas dos EUA que actuam no Iraque.

O Secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, prevê "consequências dramáticas" se, em 1 de Janeiro de 2009, não houver acordo entre os Estados Unidos e o Iraque sobre os direitos das tropas dos EUA que actuam no Iraque, seja no âmbito do chamado Status-of-Forces Agreement (SOFA - Acordo de Estatuto de Forças), seja, como segunda prioridade, como uma extensão do mandato das Nações Unidas que é actualmente a base jurídica da presença e dos direitos da actividade militar dos EUA no país, que expira em 31 de Dezembro de 2008.

As negociações entre os Estados Unidos e o Iraque atingiram um impasse, como quase toda a gente reconhece. Poderia haver um avanço de última hora, mas parece pouco provável. Parece mais provável que o Conselho de Segurança da ONU se reúna no final de Dezembro para autorizar uma extensão limitada no tempo do presente mandato. Isto iria atirar a negociação para as mãos do próximo presidente dos EUA. Não era nada disto que queria a administração Bush, ou que se esperava que acontecesse.

Há cerca de um ano, a administração Bush estava confiante de poder negociar um acordo SOFA com um presumivelmente amigável governo de al-Maliki no Iraque. Queria um acordo que mais ou menos renovasse as actuais regras que regem as operações militares dos EUA no Iraque, e que iria assim amarrar as mãos da próxima administração americana por pelo menos vários anos. Os negociadores dos EUA propuseram um acordo ao nível dos dois governos, que não teria de ser ratificado pelos legisladores de qualquer dos países.

Tudo correu mal com este plano. Primeiro, os legisladores insistiam que queriam ser parte das negociações, especialmente a legislatura iraquiana. Em segundo lugar, havia vozes políticas dentro do Iraque que eram contra qualquer acordo que mantivesse as forças dos EUA no Iraque. Entre estas estavam o grupo liderado por Moqtada al-Sadr, que levantou consistentemente a bandeira do nacionalismo iraquiano contra a prolongada presença dos Estados Unidos.

Mas al-Sadr não estava sozinho. Verificou-se que havia sérias reservas entre os três grupos que os Estados Unidos esperavam que fossem simpáticos a uma extensão - os dois principais partidos xiitas além dos sadristas (o SCIRI e o partido de al-Maliki, o Dawa), os chamados sunitas moderados, e evidentemente os curdos. Os resmungos de todos os lados levaram o primeiro-ministro Nuri al-Maliki a assumir uma linha mais dura nas negociações do que os EUA esperavam. Começou a agir como se a sua maior preocupação fosse a de ser ultrapassado, como líder iraquiano, por outros, em particular por Moqtada al-Sadr.

Al-Maliki fez assim duas exigências prévias nas negociações. Queria um data definida para a retirada das tropas dos EUA. E queria submeter as tropas dos EUA e os contratados civis à jurisdição iraquiana, sempre que fossem acusados de crimes sérios cometidos fora da actividade militar legítima. Ambas exigências eram um anátema total para os Estados Unidos.

Mas al-Maliki manteve-se firme. E, depois de muitos meses, obteve concessões. Houve acordo numa data terminal de 2011 para as tropas de combate dos EUA, e houve acordo em relação à jurisdição iraquiana sobre o comportamento na arena não-militar. Mas as palavras de cada concessão também incluíam cláusulas de escape. A retirada em 2011 era para ser sujeita a "condições no terreno". E a jurisdição iraquiana era sujeita a alguém (presumivelmente os Estados Unidos) que decidisse que o alegado comportamento estava realmente fora da actividade militar legítima.

As janelas de escape demonstraram ser demasiado grandes para poderem ser aceitas pelos políticos iraquianos. Como disse recentemente um deles, "deram com a mão direita o que tiraram com a esquerda". Assim, um após outro, disseram que não aprovariam o presente esboço de "compromisso". A voz mais importante dentro destas linhas foi a do Grande Ayatollah al-Sistani que indicou que a presente proposta era inaceitável. O maior partido xiita, o SCIRI, rejeitou a proposta. Os sunitas moderados e os curdos disseram que queriam mudanças. O governo iraquiano inteiro aprovou a insistência de introduzir emendas. Indicou então que uma das emendas deveria ser dar ao governo iraquiano (e não aos EUA) o poder de decidir sobre que comportamento dos americanos estava fora da actividade militar legítima. Não parece que estas emendas sejam de todo aceitáveis pelos Estados Unidos.

Nesta situação, o Secretário de Defesa Gates e a Secretária de Estado Condoleezza Rice tentaram fazer cuidadosos comentários diplomáticos. Outros americanos não foram tão contidos. O comandante das tropas dos EUA no Iraque, general Raymond T. Odierno, disse que a relutância iraquiana era provocada por subornos iranianos. Al-Maliki disse imediatamente que Odierno tinha "arriscado a sua posição".

Então o presidente do Chefe de Estado-Maior Conjunto, almirante Michael Mullen, opinou que sem o apoio das tropas dos EUA, as forças iraquianas não estariam "prontas a garantir a sua própria segurança". O porta-voz do governo iraquiano, Ali al-Dabbagh, imediatamente respondeu asperamente que "não é correcto forçar iraquianos a fazer uma escolha e que não é apropriado falar com os iraquianos desta forma." Outros iraquianos foram mais rudes. Consideraram uma forma de "chantagem" os comentários de Mullen sobre acabar com o apoio dos EUA se o acordo SOFA não fosse assinado.

Quando os Estados Unidos desencadearam o seu recente raid contra supostos elementos da al-Qaeda localizados em solo sírio, e fizeram-no a partir de uma base no Iraque, deitaram mais água fria sobre o acordo proposto. Um proeminente político curdo disse que o raid foi feito sem o conhecimento do governo iraquiano, e daria aos vizinhos do Iraque "uma boa razão para preocuparem-se com a prolongada presença dos EUA no Iraque". Outra das emendas que o governo iraquiano quer agora introduzir é a de proibir ataques aos vizinhos feitas pelas tropas dos EUA localizadas no Iraque.

O ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, deixou claro que a Rússia não se opõe a uma extensão da autorização das Nações Unidas, desde que seja o governo iraquiano a pedi-la. Lavrov acrescentou que a Rússia apoia "o governo do Iraque enquanto a necessidade de assegurar a soberania do Iraque sobre o seu próprio território estiver em causa". Por que a Rússia não faria isto? A Rússia está bastante contente de ver as tropas dos EUA amarradas no Iraque até agora. Assim, a capacidade de usá-las noutros lugares fica muito restrita. De qualquer forma, há a questão de saber se o governo iraquiano, quando requerer uma extensão do mandato da ONU, vai pedir que as novas disposições que os EUA não querem introduzir no tratado SOFA sejam incluídas na extensão, caso em que os EUA poderiam vetá-la.

Quem está tranquilamente a saborear o que acontece é Moqtada al-Sadr. A sua mera existência como uma voz na cena do Iraque forçou todas as outras forças políticas iraquianas a exprimir as exigências nacionalistas iraquianas mais aberta e agressivamente. A tendência aponta para esta direcção. É hoje bastante provável que o governo iraquiano vá pedir aos Estados Unidos a retirada total mesmo antes da hipotética data de 2011 da actual proposta, e muito antes dos cem anos mencionados uma vez por John McCain.

Haverá "consequências dramáticas"? O mundo vai julgar. Assim como, evidentemente, os iraquianos. E também a opinião pública norte-americana. Mas, dramática ou não, vai provavelmente acontecer.

1 de Novembro de 2008

Tradução de Luis Leiria

Nota do Esquerda.net: No dia 16 de Novembro, o governo iraquiano aprovou um acordo de segurança que regulamenta a presença das tropas americanas no país por mais três anos. Mas o acordo ainda tem de passar pelo Parlamento iraquiano para obter a aprovação final.

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo e professor universitário norte-americano.
(...)