Para a condição humana, há dois sentidos da passagem do tempo: acumulação do passado e encurtamento do futuro.Esta experiência da transitoriedade faz de nós os portadores do sentido de um tempo, por isso, ter consciência dos reflexos das nossas opções e ações é fundamental. Quanto mais ativa for essa nossa consciência mais ampla é a nossa responsabilidade e mais própria é a essência do futuro que produzimos.
Outro fator determinante é refletirmos sobre o proveito do tempo em que regemos as nossas vidas, na exigência de perfazer a vontade pessoal na satisfação coletiva e não pela formatação de “modelos” que em nada se sintonizam com a nossa felicidade. A exigência obriga a opções e as opções estão sujeitas à consciência da decisão. É tempo de sermos exigentes.
Serve este introito como uma espécie de declaração de princípios, para um conjunto de artigos de opinião que a direção deste jornal1 amavelmente me convidou a escrever, na qualidade de candidato à Câmara Municipal.
Uma grande preocupação profissional e política que norteia a minha intervenção social é, marcadamente, a de questionar, refletir e compartilhar inquietações e decisões. Acredito muito mais em quem tem dúvidas do que em quem se rege por certezas, e muito pior quando as sentem como absolutas. Vivemos um tempo de risco em que é preciso saber arriscar. Estamos perante a dualidade dos que por medo, letargia, conformismo, se abstêm de agir e dos que por oportunismo, bajulação, ganância, espezinham a concorrência. De forma diferente ambos são coniventes, como faces da mesma ideologia. O capitalismo amedronta os mais frágeis, usa os mais súbditos e engorda os mais poderosos. E é este mesmo capitalismo, hodiernamente travestido de neoliberalismo financeiro, que nos governa. É a Europa da austeridade a demolir a soberania institucional dos países, cobrando o pagamento de dívidas impagáveis com o intuito de legitimar a “chinização” da legislação laboral; a destruição do Estado Social tornando o bem público no negócio do século; a desagregação das vidas edificando a precariedade como norma, a incerteza como realidade e o desemprego como situação. E para efetivar esta matriz ideológica de mudança de paradigma social, “Os Troikanos” apostam nuns lacaios nacionais produzidos em estufas partidárias cuja maturação do fruto, em anos de carreirismo, se afere pelo amontoado de bagulho. Em Portugal, estes debuxados governantes, a coberto de um excelso Conselheiro Acácio que do seu palácio altaneiro arremessa coniventes despachos, engrossam as fileiras do poder com engravatados tecnocratas que gerem os cargos na proporção direta da comprovada incompetência de acertarem sempre no contrário do que dizem. Com a douta cientificidade do reconhecimento académico especializam-se em previsões após evidência das variáveis, obtendo resultados inversos ao pretendido. Pobre país o nosso com esta governação politicamente acéfala, financeiramente corcovada e socialmente empedernida. É tempo de ter consciência do indecente e servil papel deste desprezível governo. Temos de correr com esta chusma de terroristas sociais antes que eles destruam a nossa genuína herança de Abril. É a democracia, tal a concebemos, que está em perigo e que é obrigatório que os democratas a defendam. No imediato, apelo e exorto os barcelenses à indignação, fazendo do dia 27 uma grande greve geral que lute por tudo e por todos.
Como o cerne destes artigos será, naturalmente, Barcelos, e mesmo percebendo que o nosso concelho não é uma Gália da resistência e por tal é também sofredor do maior ataque até hoje desferido ao poder local, começo por dizer que os barcelenses foram embusteados pelo atual executivo. “Barcelos é dos cidadãos”- grande slogan de campanha. “A cidadania é o conceito que guiará o novo executivo municipal”- discurso de tomada de posse. Palavras vãs que o vento rapidamente levou. Durante 4 anos, neste tão propalado domínio, nada foi feito a condizer com o assumido. Esta, entre outras, é uma das grandes omissões da Câmara PS. Desperdiçou um capital de esperança na diferença, na mudança, na atitude. Não se joga eleitoralmente com a cidadania. Criam-se condições para um processo de comprometimento coletivo no qual imprimimos a consciência ética dos valores em que acreditamos e vemos refletida a razão de ser da ação que empreendemos e partilhamos. É o sentido de participar na celebração de uma vitória que tem o registo da nossa essência. Temos de fazer parte da história do nosso tempo exarando a marca indelével da consciência. Urge acordar e inscrever a cidadania na democracia, porque só assim é democrática. Esta é uma das razões da candidatura do Bloco de Esquerda.
José Maria Cardoso– 1º candidato do Bloco de Esquerda à Câmara Municipal de Barcelos
1 Jornal de Barcelos