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Confusão no estado-maior orçamental

Klaas Knot, governador do Banco da Holanda, apresentou há poucos meses um gráfico sobre vantagens do mercado único, numa conferência, para demonstrar que o seu país foi o quinto mais beneficiado, ao passo que Portugal, Espanha, Itália e Grécia foram os mais prejudicados.

Voltou a confusão sobre o que fazer com as regras orçamentais europeias. A bem dizer, era de esperar, mesmo que a ansiedade das declarações alemãs seja imputável à sua campanha eleitoral. Estão todos em guerra de posições, apesar de concordarem entre si: Weidmann, do Bundesbank, exige ao BCE que comece a reduzir a compra de dívida; o nosso velho amigo Schäuble escreveu no “Financial Times” uma diatribe contra Draghi, não vá ele cogitar rever a boa doutrina da disciplina orçamental e pôr-se com ideias; e o mais exuberante de todos é Olaf Scholz, ministro das Finanças de Merkel e candidato social-democrata às próximas eleições, que avisou em setembro passado que as regras não vão mudar, repetiu em março que já são suficientemente flexíveis e há dias fechou o assunto, fica como está. Como a Comissão ficou de apresentar uma proposta de adaptação das regras, Berlim fala alto.

O problema é que a obediência ao diktat não basta para as economias mais aflitas. Bonacheirão, Klaas Knot, governador do Banco da Holanda, apresentou há poucos meses um gráfico sobre vantagens do mercado único, numa conferência, para demonstrar que o seu país foi o quinto mais beneficiado, ao passo que Portugal, Espanha, Itália e Grécia foram os mais prejudicados. “A Europa do sul obteve poucos benefícios com o euro”, concluiu. Isso levou-o, numa entrevista que se seguiu à conferência, a alertar contra esta desigualdade, em particular no caso dos fundos de emergência: “Se não encontrarmos um remédio eficaz para essa distorção, seremos confrontados repetidamente com uma situação como a dos últimos meses, com um fundo europeu a ser manipulado para ajudar os países mais fortes a manter os investimentos e as economias dos países mais fracos a ficarem à tona. Isso não aumenta propriamente o apoio à UE.”

É uma chuva de dinheiro, um maná dos céus, milhões por minuto, é o que nos dizem entretanto, pese esta advertência do banqueiro holandês. Ele sabe que, se as regras não mudam, os resultados serão sempre maus para os perdedores deste contrato.

Artigo publicado no jornal “Expresso” de 2 de julho de 2021

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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