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Como é bom viver acima das suas possibilidades

Se pensava que com a comissão de inquérito ao BES e com os longuíssimos testemunhos dos banqueiros, contabilistas e afins ficou a saber como funcionava a elite da economia nacional, pois prepare-se para mais notícias surpreendentes.

O Expresso de 28 de março apresenta uma delas e é um número: de 2008, quando começou a crise financeira, até 2014, as empresas que agora estão no PSI20 distribuíram 13 mil milhões de euros em dividendos. É mais do que as empresas chinesas aplicaram em privatizações em Portugal, acrescentam com malícia e rigor as autoras do artigo (Elisabete Tavares e Joana Madeira Pereira, “PSI20 paga 13 mil milhões de dividendos desde 2008”). Por outras palavras, nunca faltou dinheiro. Outra coisa é saber como foi aplicado.

De facto, houve dinheiro mesmo quando não havia. Exemplos: mesmo com prejuízos de 63 milhões, em 2011 a Sonae SGPS pagou 66,2 milhões de dividendos. Usou as suas reservas para satisfazer os acionistas. A Zon, em 2012, com modestos ganhos de 22 milhões, pagou o triplo em dividendos, 61,8 milhões. O mesmo já tinha acontecido no ano anterior. A administração foi às reservas.

Havia portanto dinheiro. E generosamente: as duas empresas mais endividadas, a EDP e a PT, foram as recordistas do pagamento de dividendos (4,4 mil milhões na EDP e mais de 3 mil milhões na PT). No total, os pagamentos de dividendos em 2014 foram 1,7 mil milhões, ou seja, 57% do lucro foi entregue aos acionistas no caso das empresas não financeiras do PSI20. Se considerarmos o peso dos dividendos comparado com os resultados líquidos, então temos o número esmagador de 154% em todo o PSI20 (em 2013 e por causa dos prejuízos da banca). Os dividendos foram ao pote.

Note bem. Durante estes anos vivemos primeiro uma crise financeira e depois uma recessão prolongada. O endividamento destas empresas aumentou e o seu investimento caiu a pique. Ficaram mais pobres. Mas usaram mais de metade dos seus rendimentos para pagar dividendos aos seus acionistas – mesmo quando tinham prejuízos ou quando gastavam mais do que o que tinham ganho. Não foi nem para abater a dívida nem para fazer investimento para terem melhores resultados no futuro (já para não dizer criar emprego ou aumentar a capacidade produtiva). Foi para pagar dividendos. Chama-se a isto viver acima das suas possibilidades. E é a história da burguesia portuguesa.

Pois é. O caso Salgado não é só uma maçã podre que perturbava o cesto. O cesto é que é o problema pior.

Artigo publicado em blogues.publico.pt em 31 de março de 2015

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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