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Como Catroga & Moedas arrombaram os CTT

Eduardo Catroga em conjunto com Carlos Moedas trabalharam com afinco em 2011 para apresentar à troika uma lista concreta de privatizações. Os CTT não seriam uma exceção nessa lista.

“Subdelegar no Secretário de Estado das Finanças, Manuel Luís Rodrigues, os poderes para, em nome do Governo, fixar o preço das ações a alienar na Oferta Pública de Vendas (OPV).” O despacho assinado por Maria Luís Albuquerque em dezembro de 2013, não poderia ser mais claro: vender os CTT, a mais antiga e das mais lucrativas empresas públicas do país. Desde então, conhecemos o percurso de degradação dos serviços postais, com encerramento de estações, despedimento de trabalhadores e entrega de dividendos aos acionistas acima dos próprios lucros da empresa. Uma história estudada e documentada. Mas a luz lançada sobre dois intervenientes fundamentais nesta pilhagem é ainda fraca: Carlos Moedas e Eduardo Catroga. Iluminemos esta trama.

O costumeiro bloco central de interesses

Ao contrário do que muitos dirigentes do PS querem hoje fazer crer, foi pela mão do governo de José Sócrates, com o apoio da direita, que a privatização dos CTT primeiro ganhou forma. O PEC I, aprovado em março de 2010, inscreveu a alienação dos Correios no conjunto de promessas a Bruxelas, garantindo uma venda a 100% nos anos seguintes. Com esta porta aberta, o memorando da troika, assinado pelo costumeiro bloco central de interesses, impôs a concretização do plano. Em representação do PSD, Eduardo Catroga, ex-ministro das Finanças de Cavaco Silva e velho quadro do grupo Mello, em conjunto com Carlos Moedas, ex-administrador da Goldman Sachs e atual comissário europeu, trabalharam com afinco em 2011 para apresentar à troika uma lista concreta de privatizações. Os CTT não seriam uma exceção nessa lista.

Quando Francisco Lacerda tomou posse como CEO dos Correios, em agosto de 2012, conhecia bem a sua missão. Este ex-administrador de longa data do grupo Mello foi nomeado para os CTT mas manteve o lugar de administrador não-executivo da EDP. A mesma EDP que, seis meses antes, promovera a chairman um dos mentores da privatização integral da empresa: Eduardo Catroga. O firme compromisso de Lacerda com o processo de privatização valeu-lhe a confiança dos novos donos e um cargo até os dias de hoje. Mas não seria o único administrador dos CTT alinhado com os interesses desta privataria.

Os boys, a Goldman e o inevitável Arnaut

Em 2012, Lacerda foi indicado juntamente com Manuel Castelo-Branco, da comissão política do CDS, tornado vice-presidente da administração. Diogo Leite Campos, vice-presidente do PSD foi para o Conselho Fiscal e Júlio Castro Caldas, ex-ministro da defesa de António Guterres, para a presidência a Mesa da Assembleia Geral. Com a nova administração blindada ao interesse público, o governo de Passos e Portas pôs em marcha a privatização, mandatando o discreto Manuel Luís Rodrigues, vindo da equipa negocial de Catroga e Moedas para Secretário de Estado.

Anunciada a primeira fase da privatização, cedo se conheceram os principais beneficiados: no final de 2014, a Goldman Sachs e o Deutsche Bank eram já os maiores acionistas dos CTT. Ambos bancos de investimento onde Carlos Moedas exerceu funções como administrador entre 2000 e 2004. O interesse do banco norte-americano pelas empresas de correios é, de resto, anterior à privatização dos CTT. Em 2013, a Goldman Sachs esteve envolvida na privatização dos correios britânicos, o Royal Mail, uma operação que levou o diário The Independent a acusá-lo de ter dado um golpe que rendeu aos seus acionistas um lucro 14 milhões de euros. No caso dos CTT, a Goldman escolheu a assessoria do escritório do inevitável José Luís Arnaut, ex-ministro do PSD que, um ano depois, teria direito a um alto cargo no banco norte-americano.  

Os Mello, a senhora Moedas e uma administração milionária

Passados quatro anos da privatização, a Gestmin de Manuel de Mello Champalimaud, detém já mais de 12% da estrutura acionista dos CTT. A empresa (que também teve o seu quinhão na privatização da REN) dita hoje os destinos do serviço postal, com lugar de relevo no conselho de administração.  Dos treze atuais administradores dos CTT, seis ocupam ou ocuparam cargos de administração relevantes no universo do grupo Mello. Entre eles, destaca-se Céline Abecassis-Moedas, esposa de Carlos Moedas. Com pouca experiência de gestão, nomeada como administradora não-executiva em agosto de 2016, Céline Moedas ingressou nos CTT poucos meses depois de ser indicada para a administração da José de Mello Saúde. Recentemente, Carlos Moedas e o presidente da José de Mello Saúde, Salvador de Mello, abriram juntos o Mercado de Inovação Aberta em Saúde.

Esta influente posição junto do bloco central de interesses garantiu à nova administração dos CTT um caminho fácil na aplicação da receita de desmantelamento do serviço postal. O Banco CTT, nova joia da empresa, recrutou para a sua administração o ex-ministro do PS Luís Amado, agora substituto de Catroga na EDP.

Nos últimos anos, a administração dos CTT distribuiu dividendos chorudos aos acionistas, superiores até aos lucros alcançados, como em 2017, ano de encerramento de balcões e despedimento de trabalhadores. A par deste saque, a administração votou também uma choruda auto-recompensa em salários e prémios. Apenas Francisco Lacerda recebeu perto de 1 milhão de euros no último ano, enquanto os alardeados cortes salariais da administração não tocaram no esperado prémio de mandato em 2021, que tanto maior será quanto os dividendos distribuídos aos acionistas, custe o que custar à empresa e aos trabalhadores.

Resgatar o serviço postal a esta política de rapina é uma possibilidade real e uma urgência de qualquer governo que não se vergue aos interesses privados das portas giratórias. Lutar pela recuperação do controlo e gestão pelo Estado deste serviço público é defender os trabalhadores, a democracia e o país.

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, dirigente do Bloco de Esquerda e ativista contra a precariedade.
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