Como alisar os dados que se portam mal

porFrancisco Louçã

08 de fevereiro 2021 - 12:31
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O défice de profissionais no SNS é enorme. Esta dificuldade, criada pelas aposentações, mas também pela saída para os privados, é uma grave limitação dos serviços de saúde. O primeiro-ministro escolhe negar um problema que diz que não existe, uma vez “alisados” os números. Faz mal.

Um filósofo e político que viveu nos séculos XVI e XVII, Francis Bacon, ficou famoso por ter explicado que a ciência moderna consiste em “torturar a natureza para que ela confesse”. No nosso tempo, outro Prémio Nobel da Economia que desconfiava das técnicas que simplificassem a realidade, Ronald Coase, adaptou a frase para “torturar os números para que eles confessem”. Não sei se era isto que o primeiro-ministro tinha em mente quando explicou candidamente no Parlamento que, se forem “alisados” os dados trimestrais, temos agora mais médicos no SNS do que no início de 2020. O problema é que essa tortura não muda a realidade, mesmo que conforte a ideia de que não é preciso fazer nada a respeito da contratação, carreiras e exclusividade nas profissões de saúde, visto que, “alisados”, haveria mais médicos agora. Se fosse verdade, era boa notícia; mas é simplesmente falso, e em dezembro, segundo os números oficiais do portal Transparência — SNS, temos no SNS muito menos médicos do que em janeiro de 2020.

A técnica estatística do “alisamento” dos dados, por exemplo através de uma média móvel, é usada para salientar a tendência de fundo, ignorando oscilações ocasionais. É, portanto, uma forma de apresentação gráfica, e nada mais. Não é um retrato do que se passa em cada instante. Ora, se em outubro tínhamos menos 1029 médicos do que em janeiro, em novembro menos 961 e em dezembro menos 945, conclui-se que houve algumas contratações de emergência, ainda bem, mas nunca que há mais do que no início do ano. O défice de profissionais no SNS é enorme. Esta dificuldade, criada pelas aposentações, mas também pela saída para os privados, é uma grave limitação dos serviços de saúde. Pode ser resolvida ou ignorada. O primeiro-ministro escolhe negar um problema que diz que não existe, uma vez “alisados” os números. Faz mal.

Em janeiro deverão entrar no SNS os jovens licenciados do verão passado. Começarão as primeiras semanas da sua formação, que dura vários anos. Aqui está uma esperança. Mas nos próximos três anos poderão sair mais 2800 médicos dos centros de saúde e hospitais. Há mesmo um problema. Torturar ou alisar os números não o resolve.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 29 de janeiro de 2021

Francisco Louçã
Sobre o/a autor(a)

Francisco Louçã

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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