Dois anos depois, o Governo procura, portanto, tempo de antena para o seu "combate" da forma que melhor ilustra o seu conteúdo. Vazio, sem qualquer determinação e, pior que isso, sem esconder o engano da propaganda. Só assim se percebe o atrevimento de anunciar novamente uma medida que, não sendo mais do que a correcção duma obscenidade, passados dois anos, nunca chegou a ser implementada. Espera-se agora que, finalmente, o trabalho grátis possa deixar de ser permitido na lei - embora o clima de tolerância total perante o abuso patronal nos indique que as leis laborais, já muito desfavoráveis aos trabalhadores, não são mais do que vagos conselhos para os patrões. Basta ver como centenas de milhar de pessoas a falsos recibos verdes continuam a agonizar, na mais evidente e penosa fraude às regras nas relações laborais, perante a indiferença das autoridades.
Com esta nova declaração de intenções, Helena André acabou, portanto, por anunciar o fracasso dum "combate" que nunca existiu, mas que já dificilmente pode ser simulado. Esta aparente atrapalhação revela o desespero e uma derrota importante da propaganda governamental. Não podemos esquecer que Sócrates, logo no Código de Trabalho, tentou apresentar "rebuçados" (afinal sempre amargos) para os trabalhadores precários. Mas "o combate ao trabalho precário" era apenas a legalização da precariedade. Está hoje à vista que a manobra não convenceu ninguém. Dois anos depois, nenhuma das medidas do pretenso "combate" foi implementada e o plano para domesticar o descontentamento saiu furado.
Não existe, pois, nenhum engano ou expectativa sobre o Governo. Sócrates não enfrenta a ofensiva patronal sobre uma classe trabalhadora crescentemente acossada pelo desemprego e pela precariedade. A única opção para o conjunto dos trabalhadores é um combate à degradação das condições para trabalhar e viver. E fazê-lo sabendo que há hoje demasiadas pessoas isoladas e à procura de respostas difíceis mas urgentes. O próximo 1º de Maio e os tempos que se seguem são momentos importantes, que reclamam a mobilização geral - aí se têm que encontrar as vidas congeladas pela crise, os desempregados e os mal empregados, os precários e quem ainda não o é, para recusar todas as políticas da austeridade.