Coliseu do Porto: três vitórias para celebrar

porJosé Soeiro

21 de novembro 2023 - 22:46
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Em tempos desesperantes, celebremos uma boa notícia! A atual direção do Coliseu conseguiu juntar a Câmara, o Governo, a autoridade metropolitana e os sócios da Amigos do Coliseu para salvar aquele equipamento. Ganhamos todos.

É uma grande notícia para a cidade, e uma mudança de 180 graus relativamente ao que fora anunciado no ano passado. Por decisão unânime dos sócios do Coliseu do Porto (onde se incluem três entidades públicas: autarquia portuense, área metropolitana e ministério da cultura), foram anuladas as decisões de concessionar a privados aquele histórico equipamento cultural.

O Coliseu manter-se-á com o perfil que tem, gerido por uma associação de entidades públicas, de sócios coletivos e de cidadãos, aberto à cidade e capaz de ter uma identidade e uma programação próprias. É uma tripla vitória.

Primeiro, é uma vitória de quem geriu e gere o Coliseu. Nos últimos anos, a direção do Coliseu diversificou programação, fortaleceu a ligação com o território, reformulou o circo, acolheu festivais, abriu o Salão Ático a uma programação regular. Com Miguel Guedes somou ainda um dinâmico serviço educativo, que não existia, e reforçou parcerias com instituições sociais e culturais da cidade. Ou seja, o Coliseu não era nem é um mero “recipiente” dos programadores privados.

O primeiro grande ganho da decisão de não concessioná-lo é que este bom trabalho, de uma programação que não tem como critério único o sucesso comercial, pode continuar e expandir-se. Esta gestão impôs-se pela sua qualidade, desmentindo aqueles que, ainda recentemente, diziam que o Coliseu era essencialmente uma “barriga de aluguer”. Não era e não será.

Em segundo lugar, trata-se de uma vitória contra a inevitabilidade e os seus cultores. A mobilização cidadã tinha salvado o Coliseu da venda à IURD em 1995, mostrando então que aquele negócio não era um facto consumado. Em meados do ano passado, contrariando o anúncio feito durante a pandemia de que haveria obras no Coliseu pagas pela autarquia e pelo governo, a Câmara do Porto submeteu à assembleia de sócios uma nova decisão, para concessionar a privados.

Nunca foram claras as razões de uma mudança tão radical de posição. Mas contra quem questionou esse caminho, o argumento de fundo foi o de que concessionar a privados era “inevitável”, a “única solução” para as obras, o único meio de arranjar o dinheiro necessário, o desfecho inelutável de um impossível entendimento entre municípios, área metropolitana e governo.

No Parlamento, o PS chegou a chumbar a realização de audições sobre o assunto, com porta-vozes seus a repetirem o triste mote “não há alternativa”. Na Câmara também se dava a solução da concessão como fechada. Tinha de ser, o melhor era pragmaticamente aceitar, argumentava-se. Afinal não era inevitável - foi possível construir um acordo que mereceu o consenso de todos os sócios. Ainda bem que nem toda a gente aceitou a fatalidade.

Em terceiro lugar, é uma vitória da cidade e de toda a região. Era bizarro o argumento de que não havia dinheiro, numa cidade em que a autarquia tinha encontrado 4,6 milhões para o Batalha e em que o Governo tinha mobilizado 4 milhões para ampliar Serralves (e 30 milhões para o São Carlos, em Lisboa). E era incompreensível que não houvesse entendimento para concorrer a fundos comunitários.

Agora, sob a liderança de Miguel Guedes, foi possível mobilizar fundos do município, do governo e de outros parceiros (como os Clérigos e a ACP) para as obras imediatas no telhado e estabelecer um compromisso para que o Coliseu do Porto concorra ao programa Norte 2030 para uma requalificação mais estrutural.

Em tempos desesperantes, entre a impotência da chacina em Gaza e o delírio criminoso de Netanyahu, entre o descrédito de negócios contra o bem comum e as crises palacianas em Portugal, celebremos uma boa notícia! A atual direção do Coliseu conseguiu juntar a Câmara, o governo, a autoridade metropolitana e os sócios da Amigos do Coliseu para salvar aquele equipamento. Ganham todos os envolvidos. E mais: ganham todas as pessoas para quem o Coliseu do Porto é um lugar de memórias feitas e de memórias por fazer. Que haja muitas no futuro.

Artigo publicado em expresso.pt a 15 de novembro de 2023

José Soeiro
Sobre o/a autor(a)

José Soeiro

Dirigente do Bloco de Esquerda, sociólogo.
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