Coimbra terá mais encanto quando for privatizada?

porRafael Pereira

27 de outubro 2023 - 1:15
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A gestão municipal coimbrã nunca viu piores dias. As prioridades do executivo passaram neste último ano pela caridade na ordem dos milhares de euros à pequena empresa Everything is New, e agora pela entrega de um centro cultural público e democrático a uma associação privada.

Este mês, Coimbra viu-se confrontada com uma mudança inesperada. Na histórica Alta de Coimbra, junto à Sé Velha, o edifício que antes albergava a Casa da Escrita foi privatizado, passando agora a adotar o nome de Casa da Cidadania e da Língua. Isto à priori até seria expectável, até porque a gestão municipal está entregue à maior coligação de direita em Portugal e a obsessão privatizadora vinda desses lados já é fenómeno recorrente, mas este caso adota contornos mais complexos.

A Casa da Escrita foi, durante muitos anos, um ponto de encontro para intelectuais inconformados e anti-fascistas, usando aquele espaço para se exprimir através da promoção da escrita, da divulgação do livro e da leitura. Agora, sobre a gestão da Associação Portugal-Brasil 200 Anos, pouco se sabe do futuro do espaço, tendo até em conta o desconhecimento sobre as capacidades efetivas de coordenação de trabalhos da própria associação, como apontou o movimento Cidadãos por Coimbra que recebeu a inauguração do espaço, no dia 12 deste mês, com um protesto à porta.

Desde logo, esta mudança de gestão é um grave e complexo problema pela desvirtuação do espaço público inerente. As privatizações têm esse efeito nas dinâmicas locais: o espaço é retirado aos munícipes, é gerido contra a sua vontade, e o investidor privado ganha monopólio decisório sobre os conteúdos e o calendário dos eventos do seu espaço cultural. Esta oferenda de património público ao interesse empresarial, especialmente no caso concreto da Casa da Escrita que tinha o legado de ser um edifício onde, em meados de século XX, João José Cochofel integrou e fomentou a primeira geração de escritores do neorrealismo coimbrão, acaba por descaracterizar a própria cidade e a sua história.

Mas nesta privatização em particular existe outro grave problema, não fosse o presidente da Mesa da Assembleia Geral - e também fundador - da Associação à qual vai ser entregue o espaço, irmão do atual presidente da Câmara Municipal de Coimbra. Para além disso, foi também reportado que os vereadores da CMC receberam, por parte do Gabinete de Protocolo da Câmara de Coimbra, um convite para a inauguração do novo espaço uma semana antes da votação para a mudança de gestão do edifício. E sabe-se também agora que a própria CMC vai suportar as despesas anuais da Casa até 75 mil euros, tudo isto votado e aprovado em Assembleia Municipal, mesmo com 5 votos contra dos restantes partidos em representação local.

A gestão municipal coimbrã nunca viu piores dias. As prioridades do executivo não passaram neste último ano pela pressão política para a construção de um maior parque público habitacional ou residências universitárias, nem tampouco pela apresentação de um plano coerente e verdadeiramente impactante no que toca à aquisição das Repúblicas de Estudantes pelos próprios. Passaram sim pela caridade na ordem dos milhares de euros à pequena empresa Everything is New, e agora pela entrega de um centro cultural público e democrático a uma associação privada.

Não existe qualquer tipo de dúvida sobre a necessidade de preservação de património público cultural, é indiscutível o seu contributo para a democratização da cidade, para a liberdade associativa e de pensamento, para o seu uso generalizado em atividades de leitura, promoção bibliográfica e desenvolvimento de pensamento crítico. Tudo isso é posto em causa quando se entrega a sua gestão a entidades dúbias e fechadas, cuja competência para a gestão do espaço é desconhecida.

Rafael Pereira
Sobre o/a autor(a)

Rafael Pereira

Estudante de sociologia deslocado para Coimbra e ativista interseccional
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