Estamos numa campanha em que o país pensa o território e sobretudo as cidades. Quero referir-me a três cidades.
A primeira cidade é Gaza. Gaza é a cidade da morte da humanidade. Em Gaza, tudo quanto pensamos que é só distopia é, afinal, realidade. A fome, as pessoas encurraladas entre a morte e a morte, o desespero como modo de vida, tudo, tudo é realidade crua. Como crua é a cumplicidade dos governos do mundo – quase sem exceção – com essa realidade de desumanidade absoluta.
Deixem-me só dar-vos um exemplo. Há meia dúzia de semanas, José Manuel Silva recusou que a Câmara Municipal de Coimbra tivesse um gesto, estritamente simbólico aliás, de solidariedade com as mulheres e os homens de Gaza, invocando que “o assunto é muito complexo”. Como se um genocídio merecesse a resposta prudente que merecem as coisas complexas. Não é prudência que José Manuel Silva sugere. É cinismo cúmplice com os genocidas.
Mas onde os governos municipais e nacionais se calam, atua o movimento de solidariedade das gentes. Gente como a Sofia Aparício, o Miguel Duarte ou a Mariana Mortágua e tantos outros que fizeram da flotilha da liberdade um resgate da nossa humanidade.
Gaza voltou a ficar longe e sozinha na passada quarta-feira, quando o governo de Israel assaltou os barcos que levavam esperança e sequestrou quem neles denunciava a barbárie contra o povo palestiniano. Não foi só ilegal. Foi prepotência de genocida com costas largas. E é por isso que me causa tanto nojo o discurso de comentadores de direita que vêm dizer, como os machos violadores, que os ativistas se puseram a jeito e que o Estado português tem mais que fazer do que proteger os nossos compatriotas. É a extrema direita a falar, com o seu ódio do costume, pela voz de dirigentes do PSD. Mas são pequenos, não prestam. Não conseguirão travar a História. PALESTINA VENCERÁ!
A segunda cidade que quero referir é Trude. O grande Italo Calvino dá o nome de Trude a uma das suas cidades invisíveis. E diz-nos dela o seguinte: “os subúrbios não eram diferentes dos de outras cidades, com as suas casas amareladas e esverdeadas. Seguindo as mesmas setas, passava-se pelas mesmas alamedas das mesmas praças (…) Era a primeira vez que vinha a Trude, mas já conhecia o hotel em que me calhou entrar, já tinha ouvido e dito os mesmos diálogos com compradores e vendedores de sucata (…) ‘Podes apanhar o avião quando quiseres – disseram-me – mas vais chegar a outra Trude, igual ponto por ponto, o mundo está coberto por uma única Trude que não começa nem acaba, só muda o nome do aeroporto.”
Trude é a cidade igual a todas as outras cidades, que são iguais umas às outras. São cidades postais ilustrados para turistas, com os mesmos souvenirs e os mesmos comboiozinhos de passeio, as mesmas pizzarias e as mesmas lendas de um passado construído. Sim, Calvino tinha razão: Trude é aqui e é igual à Trude de outro sítio qualquer.
Pela mão de sucessivos governos municipais de PS e de PSD, Coimbra tornou-se numa Trude. José Manuel Silva sucedeu a Manuel Machado, que sucedeu a João Paulo Barbosa de Melo, que sucedeu a Carlos Encarnação, que sucedeu a Manuel Machado, que sucedeu a… PS e PSD rodaram entre si e o que nos deixaram foi uma Coimbra-Trude, uma permanente promessa de uma cidade que nos entusiasme e uma permanente realidade de uma cidade que nos desanima.
Quero então referir-me à terceira cidade e essa cidade é Coimbra. Quero responder a uma pergunta: há uma estratégia de esquerda para que Coimbra deixe de ser Trude? Respondo que sim e que foi por estar consciente de que essa estratégia existe e que a garantia de que ela é realmente assumida como alternativa para Coimbra é uma exigência incontornável deste tempo que o Bloco de Esquerda decidiu que não podia faltar ao desafio destas eleições autárquicas. É em nome dessa estratégia de esquerda para Coimbra que vamos à luta.
Coimbra não é um baú de memórias cheias de mofo embrulhadas em celofane para turista ver. Coimbra não é um rececionista servil de multinacionais ou de investidores manhosos. Há uma emoção tocante em José Manuel Silva quando fala do escritório da Deloitte no estádio. E, mais ainda, há aquele deslumbramento auto-promocional de falar em Inglês como os senhores da finança quando falam de dinheiro. O invest summit, os clusters, o Coimbra Way. O Coimbra Way, essa miragem da modernidade a chegar, enfim, a Coimbra!... Só que não. As casas podres da Baixa, a solidão dos velhos sentados nos centros comerciais, a lonjura do centro para quem vive a 20 kilómetros dele, a violência social contra os imigrantes, a colonização da política municipal para a cultura pela promoção de eventos e pelo entretenimento – tudo traços da Coimbra de José Manuel Silva que são a cidade invisível – invisibilizada, digo eu – que mostra a mentira do Coimbra Way.
Coimbra não é uma marca que se vende como se fosse uma lata de salsichas. E como lamento que essa seja a visão do programa da coligação liderada pelo PS!... Como lamento que ao Coimbra Way de José Manuel Silva, Ana Abrunhosa contraponha a GoCoimbra, certamente apontada aos mesmos clusters do mesmo invest summit… Como lamento que o vazio da influencer ao serviço das direitas seja rivalizado pelo vazio da influencer ao serviço da coligação liderada pelo PS… Como lamento que tudo isto mostre afinal o mesmo projeto de cidade, sem alma nem rasgo. Não há ilusão de renovação que resista a tanto de velho e de contentinho que nos é dado pelos partidos do centro.
Por ser assim, eu insisto em que há uma estratégia de esquerda para Coimbra e que ela tem de ser de contraste pleno com a perpetuação do que está. É a estratégia que põe à frente de tudo criação de uma comunidade sólida e coesa, que combata as discriminações que humilham e promova as discriminações que igualam. Uma comunidade em que o cuidado de toda a gente com toda a gente seja a gramática da política. Uma comunidade em que a proteção do ambiente seja a expressão da primazia do que é património comum e que, por isso, não aceita que uma ponte seja mais importante que um grande espaço verde. Uma comunidade em que a participação não é um empecilho, mas sim o dínamo de decisões boas. Uma comunidade em que uma vida inteira de trabalho seja considerada como o mais importante dos ativos e, por isso, assumida como exigência de cuidados iguais para ricos e para pobres, num serviço municipal universal. Uma comunidade em que o interesse público seja o bem maior e que, por isso, não hipoteca o espaço próprio de uma grande bienal de arte à construção de um hotel para uma pequena casta de privilegiados.
A esquerda, em Coimbra, tem de se unir em torno do imperativo de construir uma comunidade assim. Isso supõe um corte drástico com décadas de governação municipal rotativa entre PS e PSD, numa alternância que nunca significou alternativa. A esquerda não pode querer para Coimbra menos que essa alternativa radical, ambiciosa, rasgada de cidade. Chamem-lhe utopia. Se utopia é o nome da não resignação ao que está e a uma governação rasteirinha, então assumamos toda a força transformadora dessa utopia e façamos tudo para que a utopia dos transportes públicos gratuitos, a utopia de um serviço municipal de cuidados, a utopia da preservação do Choupal, a utopia da habitação municipal não concentrada em guetos, a utopia de uma reabilitação da Baixa que multiplique o exemplo de quem ali assentou arraiais para fazer e mostrar cultura, a utopia da saúde em todas as políticas municipais se tornem realidade como acontece em tantas cidades europeias que nos encantam.
Trouxemos esta ambição da esquerda, ao mesmo tempo imensa e realista, para este combate político. Tornámos Coimbra irmã de Gaza e mostrámos que Coimbra não tem de se resignar a ser Trude. Já começámos a mudar Coimbra. Vamos mudá-la mesmo.