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As cenas tristes da série israelita “Os massacres da praxe continuam”

EUA, Reino Unido e UE são cúmplices do genocídio e tornam-se destinatários do augúrio de Saramago: “Um dia se fará a história do sofrimento do povo palestiniano e ela será um monumento à indignidade e covardia dos povos”.

O esquecimento do extermínio faz parte do extermínio”- Jean-Luc Godard, cineasta (1930-2022)

“Os antepassados judeus que os nazis tentaram desumanizar nos campos de concentração, os revoltados do Gueto de Varsóvia, hoje, levantar-se-iam indignados contra o colonialismo racista do Estado de Israel e o seu genocídio em curso”. - Ariel Feldman, cineasta judeu a viver na Argentina.

Na semana passada fui ver mais um filme do ciclo “Mestres do Cinema”, integrado na programação regular do Cine Clube de Viseu (um dos motivos que fazem valer a pena viver nesta cidade, apesar do bafio que voltou a emanar mais intensamente do Rossio). “Fechar os Olhos”, de Víctor Erice, começa com a personagem Lévy a identificar-se como um judeu sefardita nascido em Tânger, onde se tinham refugiado os seus ascendentes longínquos expulsos de Espanha [pelos Reis Católicos, em 1492], que, no entanto, levaram com eles as chaves de suas casas em Toledo, na esperança de um dia poderem regressar. O que me fez recordar os testemunhos que li de alguns dos descendentes dos 750.000 palestinianos expulsos de suas aldeias e vilas pelos judeus sionistas, no início da ocupação colonialista da Palestina, em 1948. Também os seus pais e avós tinham levado consigo as chaves de casa, na convicção de que em breve regressariam à terra que já era habitada há séculos ou milénios pelos seus antepassados. Como é que o povo judeu, que foi tão perseguido, banido, expropriado, humilhado e massacrado ao longo da história, pode permitir que os sucessivos governos de Israel, desde há 75 anos, tenham perseguido, banido, expropriado, humilhado e massacrado o povo da Palestina? Tenho reflectido, desde há muito tempo, sobre as origens da maldade e do ódio racial e xenófobo, quer da extema-direita nazi e fascista, quer de algumas pessoas que à primeira vista parecem “normais”, mas se revelam desprovidas de qualquer vestígio de humanidade. Nem Hannah Arendt ou Günther Anders, nem Paul Ricoeur e a sua hermenêutica do mal, até Susan Neiman e o seu “O Mal no Pensamento Moderno”, passando por Dostoiévski, nem as análises sobre as origens do fascismo de Daniel Guérin, Bettelheim, Poulantzas, Gramsci, Mandel, Renzo de Felice, Reinhard Kühnl, Wilhem Reich e a sua “Psicologia de Massas do Fascismo”, Primo Levi, Rob Riemen, foram suficientes para eu compreender cabalmente a maldade humana ou a falta de empatia com o sofrimento de vítimas inocentes de massacres e guerras. O linguística e pensador norte-americano Noam Chomsky, ele próprio descendente de judeus, explicou-nos como a manipulação dos “media” fabrica o consenso à volta da “ordem” capitalista em grandes camadas da população mundial. Mas, onde fica o espírito crítico?...

Até que há dias, ao passar pelo Campo de Viriato, em Viseu, dei com uma troupe de estudantes do Instituto Piaget, em plenos rituais da praxe académica. Os “doutores” da treta puseram os(as) caloiros(as) a cantar estes mimos de originalidade: “Eu nasci em Mamas/ em Mamas eu nasci/ Tão longe é daqui a Mamas/ Como de Mamas aqui”. Segunda estrofe: “Eu nasci em Chupas/ em Chupas eu nasci/ tão longe é daqui a Chupas/ como de Chupas aqui”. E lá seguiam alegremente os/as caloiros/as com orelhas de burro ou uns cornichos na cabeça, as caras pintadas de verde, a arrastar latas de cerveja e “Caca-cola” e penicos de plástico (estes não levavam as “tradicioanais” fraldas), escoltados por negros corvos e corujas armados com cajados e colheres de pau gigantes (para os pôr a mexer?), qual arrogantes “guardadores de ovelhas”. Velhas e anacrónicas praxes que caíram em desuso logo a seguir à revolução do 25 de Abril , mas rapidamente recuperadas como instrumentos de reprodução da submissão acrítica ao poder hierárquico de uma casta social que tem prazer em humilhar os mais fracos e desprotegidos. Cenas tristes! Mas, então, eu percebi. Percebi como a falta de espírito crítico e a ovina obediência ao poder leva pessoas com instrução académica, como alguns jornalistas, bloguistas e comentadores a dizer barbaridades, como fizeram, no Público, João Miguel Tavares ou Francisco Mendes da Silva, ao escreverem que os milhares de vítimas dos bombardeamentos israelitas em Gaza eram “danos colaterais” na luta contra os terroristas do Hamas. João Miguel até comparou o ataque do Hamas de 7/10, “à violência desmedida dos guerrilheiros da UPA em 1961 contra os portugueses [no norte de Angola] que teve o mesmo objectivo “ de “obrigar a uma intervenção militar capaz de quebrar a situação de impasse; torná-la o mais desgastante possível, de forma a conduzir a uma clarificação política e à vitória final”. JMT começa por omitir um dado determinante: é que um mês antes do ataque da UPA a colonos portugueses, em Março de 1961, a ditadura de Salazar mandou caças portugueses bombardear com napalm 17 aldeias da Baixa do Cassanje, queimando mais de 5 mil camponeses que tinham iniciado uma greve de protesto por serem forçados a trabalhar sem salário e a vender a sua produção de algodão muito abaixo do preço de mercado mundial à Cotonang, companhia luso-belga, que os impedia de cultivar os seus próprios alimentos.

Por acaso, há um paralelismo com os massacres de Israel: Salazar tinha sido avisado pela PIDE, nas vésperas, do ataque da UPA, mas não fez nada à espera de um massacre de colonos que pudesse unir os portugueses cada vez mais descontentes com o regime. Segundo o New York Times (que também confirmou, em 10.12.23, o financiamento do Hamas por Israel, através do Catar, para enfraquecer a OLP e, assim, evitar a criação do Estado palestiniano), Netanyahu foi avisado pelos serviços de informação israelitas (um dos mais avançados do mundo) do ataque do Hamas, mas ignorou os avisos para ter uma comoção nacional e um pretexto para se armar em herói e lançar mais um massacre de palestinianos, empatando o processo judicial que o tinha acusado de corrupção, fraude e abuso de confiança. Mas o julgamento já recomeçou há uma semana e dificilmente se livrará de levar um cheque-mate, se não da Justiça israelita, talvez do Tribunal Penal Internacional (TPI) onde já tem várias queixas por crimes de guerra e de genocídio. Israel não faz parte do TPI, ao contrário da Autoridade Palestiniana, e Netanyahu acusou este tribunal de “antissemitismo” quando o TPI decidiu, em 2021, que a sua jurisdição penal se estendia aos territórios palestinianos de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental e abriu uma investigação sobre a violência na região desde 2014. Em 2019, o governo israelita expulsou do país o director da organização de direitos humanos Human Rights Watch para Israel e a Palestina, o norte-americano Omar Shakir, sob a acusação de ele apoiar o movimento internacional de boicote a Israel, BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções). Agora, Israel até acusa Guterres de apoiar o Hamas por apelar ao cessar-fogo.

Netanyahu, que se aliou a partidos da extrema-direita religiosa e racista que defendem a expulsão de cidadãos israelitas árabes, prometeu que se fosse eleito nunca haveria um Estado palestiniano, e, na verdade, já inviabilizou a solução dos Dois Estados (Resolução 181 da ONU), ao anexar cada vez mais território palestiniano com a expansão dos colonatos. Por isso, há muitos palestinianos e israelitas a defender um Estado binacional laico e democrático. Mais utópico? Ou mais justo?...

Segundo a ONU, já morreram mais de 18.200 palestinianos, em Gaza, incluindo mais de 7.500 crianças e mais de 4 mil mulheres. Os EUA vetaram a resolução do Conselho de Segurança da ONU, convocada de urgência por Guterres, a apelar a um cessar-fogo humanitário, a libertação incondicional e imediata de todos os reféns e a garantia de acesso humanitário. Teve de ser a Assembleia Geral da ONU a aprovar um cessar-fogo imediato em Gaza, com 153 votos a favor, 2 contra (Israel e EUA) e a abstenção, entre outros, da Alemanha e dos Países Baixos. A União Europeia ainda não teve a coragem de condenar explicitamente o terrorismo de Estado de Israel, nem tão pouco reconhecer o Estado da Palestina (Sanchez já prometeu fazê-lo unilateralmente!). França e Alemanha cedem à extrema-direita que apoia Israel, proibindo manifestações pró-Palestina. Invocar o “direito à autodefesa de Israel” é distorcer a lei internacional, a começar pela Carta das Nações Unidas, que não reconhece qualquer direito a agredir um povo por parte de uma potência ocupante e colonizadora; pelo contrário, legitima o direito à resistência armada de um povo ocupado e colonizado à força. EUA, RU e a UE são cúmplices do genocídio e tornam-se destinatários do augúrio de Saramago: “Um dia se fará a história do sofrimento do povo palestiniano e ela será um monumento à indignidade e covardia dos povos”.

O “The End” deste filme de terror aguarda a libertação da Palestina.

Sobre o/a autor(a)

Ativista associativo na defesa dos Direitos Humanos. Militante do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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