Ceia de Natal com o “Tio Facho”, um manual alternativo

porManuel Afonso

21 de dezembro 2025 - 20:48
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Pensamos juntos nas melhores maneiras de responder àquele “Tio Facho” que, na consoada, vitupera contra os imigrantes, a corrupção e a criminalidade. Por vezes, compilamos dados e argumentos numa espécie de “manual” para discutir com o “tio facho”.

Ho! Ho! Ho!

Como tudo nesta terceira década do século XXI, a ceia de Natal tornou-se um momento polémico.

Festa de celebração da comunidade, reencontro familiar e regeneração pessoal ou momento de conversas tensas e  despiques verbais sobre imigração, segurança e sobre um certo candidato presidencial que “diz as verdades”?

(Isto para quem tem ceia de Natal, quem não está a trabalhar nessa noite ou nem sequer tem casa e família com quem partilhar esta quadra…)

Para muita gente, o reencontro familiar é difícil, cheio de traumas, discussões e problemas mal resolvidos. Sempre foi. Mas com a ascensão da extrema-direita e da sua cultura política (que contamina não só vários partidos como a comunicação social, o entretenimento, etc.) isto piorou. Para gente de esquerda (como são, provavelmente, a maioria das pessoas que estão a ler estas linhas), a antecipação da ceia de Natal é angustiante. Já imaginamos as conversas difíceis, as bocas reacionárias e as piadas preconceituosas, que aumentam de tom na proporção dos copos de vinho enborcados e do adiantar da noite. Sobretudo, antecipamos a tristeza e a revolta de sentir que o ambiente que nos é mais próximo e aquelas pessoas de quem mais gostamos estão a ser tomados por um vírus de maldade, cegueira ideológica e baixeza política perante o qual nos sentimos impotentes. É desolador.

Mas vale a pena pensar. O problema não será (também) nosso?

Como assim?

Para responder a esta justa ansiedade pré-Natal, tentamos sempre preparar-mo-nos. Pensamos juntos nas melhores maneiras de responder àquele “Tio Facho” que, na consoada, vitupera contra os imigrantes, a corrupção e a criminalidade. Por vezes, compilamos dados e argumentos numa espécie de “manual” para discutir com o “tio facho”. Quase sem exceção, esses “manuais” indicam uma série de respostas na ponta da língua, recheadas de números e de certezas absolutas, prontas para calar de uma só vez o tio ou primo em questão.

A minha pergunta é: para que serve isso? Mais: o que nos diz essa abordagem sobre nós mesmos (a esquerda), tantas vezes taxados de arrogantes, elitistas e de autoritários?

Vale a pena pensar. (Ou então não vale. Mas aí as críticas que nos fazem ganham ainda mais razão.) Em princípio, pensar não faz mal a ninguém. E é grátis.

Sendo muito sucinto: acho que desaprendemos a conversar. E a ouvir. E isso alimenta o isolamento e a frustração das pessoas de esquerda. Ao mesmo tempo, reforça a ideia de que somos autoritários e arrogantes (muitas vezes é a isso, e não às propostas da esquerda, que as pessoas se referem quando nos chamam “radicais”...).

Basta pensar como nos sentimos após uma discussão (seja política ou qualquer outra) em que alguém “arrasa” connosco. Aproximamo-nos das posições de quem nos cilindrou? Ou pelo contrário, ainda nos aferramos mais às nossas crenças? É isso mesmo. Cada vez que “arrasamos” com um “tio facho” ganhamos (ou consolidarmos) um eleitor da extrema-direita.

Dito isto, aqui vai o meu “Manual para responder ao tio facho” (que rebatizo para “Manual para conversar com familiares que não pensam como nós”).

  1. Ouve. Não tenhas uma resposta na ponta da língua. Não serve de nada. Às vezes, o simples desabafo e a oportunidade para as pessoas se ouvirem a si mesmas fazem metade do trabalho. E, sobretudo, o saber ouvir tem um valor político em si mesmo, num país em que os políticos, os partidos e as elites estão tão afastadas do cidadão comum. Uma esquerda que ouve já está a ganhar.
  2. Ouve mesmo. Não basta ficar calado a ouvir. É preciso tentar compreender. Muitas vezes as ideias erradas ou reacionárias não nascem apenas de preconceitos (embora estes estejam quase sempre presentes). São uma expressão errada de um problema real. Perceber essa raiz do ressentimento é o nosso objetivo. Quando chegamos a esse problema real (habitação, saúde, salários), já estamos a construir um chão comum.
  3. Faz perguntas abertas. Não perguntes “onde é que ouviste isso?”, que é entendido como a insinuação arrogante de que a pessoa está a ser manipulada, ao contrário de nós, a esquerda inteligente, que sabemos tudo. Pergunta “e porque é que pensas assim?”, “E se fossem tomadas as medidas x ou y, o que acharias?”...
  4. Não uses os dados para calar, mas para deixar falar. Os números e os dados objetivos ainda contam muito. Mas se forem armas de arremesso não funcionam. Se o teu familiar disser que os imigrantes “não trabalham” em vez de lhe dizeres “Mas são eles que vão pagar a tua reforma! Saiu uma notícia que mostra que são os descontos dos imigrantes que estão a financiar a Segurança Social!”, talvez valha a pena, primeiro, tentar entender por que motivo ele acha isso. E, depois, a dado, momento dizer: “Vi uma notícia que me surpreendeu. Parece que os descontos dos imigrantes estão a ajudar muito a Segurança Social. Viste essa notícia?”. A diferença é subtil, mas pode ser determinante. A seguir pode seguir-se um “o que me revolta é termos empresas multinacionais a fugir aos impostos com 2,9 milhões de euros por dia, soubeste dessa?”.
  5. Procura pontos de concordância. O objetivo da conversa não é discordar, é concordar! Se no meio de várias diatribes reaças difíceis de engolir ouvires algo importante em que concordas, valoriza isso. Puxa o tema para aí. “Pois é, nisso estamos de acordo. E o que achas que se pode fazer para mudar isso?” Concordar sobre algo é o ponto de partida para agir em conjunto. E agir em conjunto é outro nome para a política de esquerda.
  6. Não debatas, conversa. Para quem está muito envolvido em política, os debates parlamentares ou eleitorais tornam-se o modelo a seguir. Mas a vida não funciona assim. Substituir o critério eleitoral por um critério de classe na nossa ação política (e como se vê, uma ceia de Natal é ação política) é pensar que alguém das classes populares é “dos nossos”. Mesmo que discorde totalmente de nós (tirando casos extremos, como neonazis empedernidos), é dos nossos. E, com os nossos, nós queremos falar, aprender e agir em conjunto. Cada vez que fazemos isso, puxamos gente para o nosso lado, criamos laços de confiança e, a partir daí, será mais fácil passar as nossas ideias. Ninguém é convencido por quem não confia.

Isto soa tudo a excesso de boa vontade pré natalício? Talvez. Mas a abordagem de “calar o tio facho” não está mesmo a funcionar. Estarei errado? Bom, como diria o outro, change my mind!

E, sobretudo, boas festas!

Manuel Afonso
Sobre o/a autor(a)

Manuel Afonso

Assistente editorial e ativista laboral e climático
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