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Cavaco pode celebrar

Ao recusar o diálogo à esquerda, o PS quer aceitar o negócio de Cavaco: apoio à austeridade em troca de eleições em 2014.

1. Cavaco Silva teve ontem a melhor notícia dos últimos tempos. O Bloco propôs ao PS e ao PCP reuniões para verificar as condições para um governo de esquerda. No mesmo dia, à primeira reunião, o Partido Socialista terminou contactos. "O PS está empenhado num processo de diálogo", sim, mas com o PSD e o CDS. Os conteúdos programáticos que o Bloco levou à reunião - fim do memorando, renegociação da dívida, recuperação de salários e pensões - foram resumidos a "jogo partidário". Estamos conversados. Só a troika pode contar com António José Seguro.

O alinhamento do PS com a estratégia da troika está abundantemente documentada. Ainda há menos de um mês, a Mesa Nacional do Bloco elencava as obsessões de Seguro: a fidelidade ao pacto orçamental europeu, a dívida como “questão de honra”, a congratulação com a privatização dos CTT e da TAP a favor de interesses brasileiros, etc. E sublinhava a ambiguidade como marca das críticas de Seguro à austeridade do governo. Ora, desfazer ambiguidades e situar alternativas é o pior que se pode fazer ao PS. Só isso explica a rapidez do PS a cortar qualquer diálogo. O povo de esquerda exige a convergência contra a austeridade - "entendam-se, porra!". O pior que pode acontecer a Seguro é, perante uma proposta política forte, vinda da sua esquerda, ter de deixar claro o lado que escolhe.

2. Com Seguro no barco de Cavaco, os próximos tempos serão amargos para o PS. Não é a troika que vai dar uma ajuda a Seguro (deixando de exigir "mais sacrifícios" como lhe promete Cavaco). É o PS que vai ajudar a troika a continuar a drenar a maior riqueza possível, o mais depressa possível, de toda a forma possível (juros, privatizações...), custe o que custar a quem cá vive. Mas, tal como os socialistas gregos aprenderam à sua conta, não basta juntar o centrão e agitar a "salvação da pátria" para garantir a estabilidade do assalto.

3. A importância da reunião entre o PCP e o Bloco é reforçada pela evolução política desta semana e pela resposta de Seguro à iniciativa do Bloco. Esta reunião não deve ser um momento meramente protocolar. Ambos os partidos devem ir além do reconhecimento de convergências passadas, nas ruas como no parlamento, e de posições partilhadas na atual situação (demissão do governo, exigência de eleições, recusa do memorando). Esta reunião deve sinalizar um percurso de diálogo aberto no campo da resistência social e avançar na verificação dos conteúdos comuns da proposta de governo de esquerda.

Sob a ditadura da dívida, o tempo corre contra a esquerda. Só terá força para resistir - e talvez vencer - quem juntar clareza política e vontade unitária.

Sobre o/a autor(a)

Deputado e dirigente do Bloco de Esquerda. Jornalista.
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