A carta de Ali-Bábá

porAlice Brito

13 de janeiro 2011 - 0:13
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O “não – dito” faz parte do cerimonial de poder de Cavaco. Falar é para ele um martírio.

O “não – dito” faz parte do cerimonial de poder de Cavaco. Por isso quando diz, Cavaco perde poder. Daí que está sempre caladinho que nem um rato. Falar é para ele um martírio. Não gosta dum céu límpido. Gosta sempre da nuvem carregada de sugestões, admoestações, e outras coisas que não se sabe bem o que são, e que vão pairando por aí até os fiéis as descodificarem, cada um à sua maneira, acrescentando-lhes a mais valia do seu próprio pensamento. São os que se podem chamar, de forma absurda, de cavaquistas. O cavaquismo é aquilo: eles próprios, mais cavaco e o seu silêncio. Uma opinião que nada tem a ver com Cavaco cuja opinião é inexistente e porque inexistente, se presta a mil e uma versões. É o bluff no seu melhor.

São os cavaquistas de serviço. Os que querem que o FMI intervenha e os que não querem que o FMI intervenha. Todos cavaquistas.

Até há pouco tempo pensava-se que Cavaco não falava só por isso. Porque não tinha nada para dizer. Agora percebe-se também que Cavaco não fala porque não deve falar. Como é que ele ia explicar a quem vai ver cortado o seu salário que aquele golpe é para pagar as tramóias bancárias de um banco a quem ele sacou um lucro exorbitante, ou seja, que o rasgão salarial sofrido vai servir para pagar os lucros absurdos de que ele e outros como ele foram beneficiários…

O preço da venda da mercadoria acusa um ganho de cento e quarenta por cento. Coisa pouca.

Mas afinal não foi o preço da venda mas o preço da compra que ultrapassa a fronteira do escândalo.

Quando tudo se descobre, os apoiantes, por contraposição ao tenso silêncio do homem que prega a moral, lançam mão de palavras explosivas: mentira, insinuação, calúnia, baixa política. Na fúria do desmentido disparam perdigotos copiosos contra o discurso adversário, atingindo o patamar da loquacidade pantomineira.

Os partidários querem dizer tanto que acabam por esgotar o fôlego com que defendem o indefensável e nada dizer que préstimo tenha. Declaram que não ganhou muito, porque houve outros que ganharam mais. Cento e quarenta por cento. Declaram que pagou impostos sobre o ganho, como se isso branqueasse a própria substância do ganho. Chutam para canto, neste campeonato em que Cavaco cometeu a falta e tenta iludir o árbitro dizendo que sofreu uma rasteira. Deitado no chão o jogador manhoso chora de dor. Quando perguntado onde lhe dói declara que está acima da dor e continua a chorar. Chegam as ambulâncias.

Até aqueles que pareciam muito polidos, educadinhos e contidos, com doses industriais de verniz anti fissura, levantam a voz, interrompem opositores nos debates e assumem um porte meio gingão, digamos que, um pouco a deslizar para o fadista apanhado em enrascanço. É o pânico, claro, o velho aliado do desnorte, que motiva aquela fúria, aquela metralha vocabular, aquele excesso argumentativo, como se à força de negação se apagassem os registos materiais que explicitam um tratamento especialíssimo da Silva, benefícios excepcionais, que agora pagamos todos.

E depois há aquelas cenas macacas em que aparecem juntinhos e ao vivo, quase de braço dado, sorrindo solidários, o Oliveira e Costa, íntimo e afectuoso, o Dias Loureiro, dilecto e protegido amigo do peito, e mais uns quantos que estagiaram e ganharam balanço na escola superior do cavaquismo.

Ali-Bábá escreveu ao chefe dos ladrões. Queria vender uns papéis.

A carta dizia assim: Abre-te Sésamo.

Alice Brito
Sobre o/a autor(a)

Alice Brito

Advogada, dirigente do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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